Apologia do voo

Porque é que gostamos de Aviação? Porquê esta paixão pelo vôo? Esta paixão pela embriaguez de nos separármos do solo, de ganharmos uma terceira dimensão? Porque é que de cada vez que ouvimos o barulho de um motor a gemer por entre as nuvens, corremos cá para fora ? Não sei. Tem sido assim, desde que nos conhecemos por gente. Logo a seguir ao triciclo, os aviões foram o nosso principal interesse. Acredito que os riscos que fazíamos nas paredes lá de casa com canetas de feltro, nada mais eram do que o jacto a saír em fúria do escape de um avião.

A Aviação foi para muitos de nós, um dos primeiros interesses. Mas porquê? Arriscaria dizer que é porque a maioria de nós consegue andar, e alguns conseguem mesmo nadar. Mas conseguir voar tem estado ao longo da História ao alcance de muito poucos. Aí reside grande parte do fascínio. Fisicamente, voar foi uma utopia até meados do Séc.XVIII. Até ao aparecimento dos aerostatos de Bartolomeu de Gusmão ou de Montgolfier, o voo era apenas uma prerrogativa dos pássaros, que serviam desesperadamente de inspiração a pintores, filósofos e desenhadores como Leonardo da Vinci. A história de Ícaro representava na mitologia o castigo pela ousadia de sonhar em voar,um acto pertença dos deuses. Lentamente o Homem aprendeu a técnica de voo, e pôde finalmente sonhar ele próprio em voar.

O privilégio de viver numa época onde o voo é possível, atira-nos para urgência da apreciação do voo, e em casos mais graves, para a aprendizagem do voo. Para alguns, a aviação, voar e os aviões, assumem o contorno urgente de uma carreira, de uma vida. Para outros apenas um passatempo e uma plataforma para momentos de evasão, onde se resguardam da tirania das coisas mesquinhas, conforme escreveu Exupéry. A tecnologia democratizou o voo, resgatando-o do domínio filosófico onde esteve encerrado durante toda a história da humanidade.

Mas desde sempre que voámos. Principalmente, cá dentro de nós. Voávamos sempre que saíamos das aulas a correr, com os braços todos esticados para trás, como se fôssemos uns F-86. Voámos pela Vida fora, mesmo sem estar dentro de nenhum avião. Para locais de sonho, para locais onde queríamos estar. A oportunidade de voar é um privilégio único, quer no sentido imaginário, quer no sentido real. Pouca importa para onde vamos. O que interessa, é o fascínio que esse vôo tem de perdurar por muito tempo dentro de nós . É essa a magia do vôo.

( Este artigo é 100% livre de acordo ortográfico)

Mike Silva, “Portuguese Aircraft Restoration Group”. Publicado em Setembro de 2015, republicado Janeiro 2019. Fotos por Fausto García, Marc Rafanell López, Mourad Saadi.

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