Voo à vela

DUPLA VITÓRIA

ANNELIESE FERNANDES PINTO

-PRIMEIRO “C” DE PRATA FEMININO PORTUGUES e

-RECORDE ABSOLUTO PORTUGUÊS DE DISTÂNCIA EM PLANADOR (80 KMS)

Os cúmulos começaram a formar-se cerca da uma hora da tarde, adensando-se lentamente aí pelos 2000 metros.

No ar apenas dois planadores: um Rhonlerch tripulado pela Anneliese e o Bergfalke com o em Chevalley aos comandos.  Ambos faziam a prospecção das condições atmosféricas que,  minuto a minuto, melhoravam progressivamente. O Bergfalke, pesado e lento a virar, aligeirava-se como que remoçado pela térmica que “começava a dar”. Subiu rapidamente a 1600 metros.

Batida toda a zona circundante do aeródromo de Évora, verificou-se que as ascendências apareciam generosamente de todos os lados. O variómetro marcava 5 m/seg em voo recto! Nem era preciso manobrar o planador para o centrar na térmica.

Os dois pilotos, certificados de que as condições eram propícias para uma prova de distância, desceram rapidamente. Havia que montar os barógrafos, receber o último “briefing”, almoçar rapidamente e partir.

A excitação era grande. Todos se afadigavam em torno do primeiro planador a partir. Esqueceu-se o almoço e na larga frigideira da modesta “sala” dos pilotos de voo à vela ficou esquecida uma boa fritada de ovos com salsichas, que chiava alegremente num banho de margarina.

-Anneliese, pelo menos uma empada!

E foi com este mais que frugal repasto que Anneliese Fernandes Pinto se preparou para bater o recorde português de distância em planador e para conquistar brilhantemente o primeiro “C” de prata feminino atribuído em Portugal.

Enfiou-se dentro do espaçoso cockpit do Bergfalke e ajustou os cintos sobre um grosso e elegante casaco branco, seu companheiro de voo na Montanha Negra. Na cabeça, um chapéu vermelho bem enfiado até aos olhos. Como toque feminino, os cabelos loiros, amarrados com um gancho, espalhavam-se o arnês do pára-quedas.

Experimentou os comandos, regulou o altímetro e ergueu o polegar. Parecia serena, mas os olhos denunciavam, no brilho intenso, uma firme determinação.

Eram 14:05 de domingo, 13 de Outubro, quando o Auster, com o Batista aos comandos, arrancou numa nuvem de poeira, rebocando o Bergfalke. A largada foi perfeita. Sobre Évora, a ascendência soprava rijamente e o piloto, cortado o reboque apenas a 360 metros, iniciou a espiral de subida.

Atingidos os 1800 metros, apontou a Beja.

Por estranha coincidência, todo o firmamento para norte da vertical do aeródromo estava completamente limpo: o azul era o suave e total, sem a mais ligeira o nuvem. Para sul, porém, a cerca de 8000 pés,  acastelava-se uma fiada interminável de cúmulos que, certeiramente, balizavam o caminho para o objectivo. O vento fresco, soprando de norte, estava de feição. A perícia e a serena determinação de Anneliese fariam o resto para lhe conferirem o mérito e a distinção os de vir a ser a primeira Mulher Portuguesa a entrar no “clube dos melhores do voo à vela”.

A longa caminhada para este triunfo começara há catorze anos em Alverca. Com uma extrema habilidade e certamente com muito boa vontade, conciliou os com cuidados domésticos, nada facilitados pela natural irrequietude das quatro “loiras crianças”, com os seus afazeres profissionais e a instrução de voo em planador. Aos sábados ia de abalada para Alverca, na companhia inseparável do Duarte, o mais jovem “rebento” da família Fernandes Pinto. E cada um se divertia pacatamente à sua maneira: a mamã, trepando ligeira às alturas, enfeixada na carcaça frágil e elegante de um planador, e ele, o Duarte, chuchando gulosamente o dedo grande do pé direito e molhando ostensivamente as fraldas dentro da alcofa, guardada à vista pelos pilotos que aguardavam a vez de voar.

E veio o desejado brevet o segundo lá em casa, porque nessa altura, já o engenheiro Henrique Pinto era titular de uma licença de voo à vela. Mais  tarde, e na boa tradição familiar, uma das moças, a Benedita, também se deixou contagiar pela inocente mania dos planadores. E a família “enriqueceu” com mais um brevet.

Em Setembro deste ano, a Anneliese fez um estágio de aperfeiçoamento, durante quatro semanas, no Centre National de la Montagne Noire, em França. Foi o “doutoramento” depois de uma inesperada “licenciatura” em Sintra e, mais recentemente, em Évora. Nesse estágio apurou as qualidades de pilotagem e penetrou nalguns segredos da teoria e da prática do voo à vela. E não perdeu o seu tempo para demonstrar que tinha aprendido: aí arrancou brilhantemente as “5 horas”, não obstante as condições atmosféricas não serem as mais favoráveis.

A prova de altura já a havia feito dois meses antes em Évora.

E agora, naquele luminoso de domingo de Outubro, quando toda a imensa campina alentejana se vestia exuberantemente com as galas de Outono numa orgia tranquila de doirados e castanhos, o Bergfalke cortava o ar serenamente, a 2000 metros de altitude, rumando para o objectivo. Chegou à vertical de Beja em cerca de 55 minutos num voo magnífico, sem nunca ter descido abaixo dos 1500 metros. Como as condições atmosféricas, ascendência e direcção do vento, se mantinham favoráveis, decidiu prosseguir para sul. Internou-se mais pela planura alentejana.

Beja, com a sua torre solitária num velho castelo roqueiro, ficou para trás. Ao longe, na linha do horizonte, o recorte da serra algarvia. Mais meia hora de voo.

Junto a Mértola a térmica, porém, começou a enfraquecer e o Bergfalke iniciou lentamente uma descida suave. Estava na vertical de Alfarrobeira de Baixo, trinta quilómetros ao sul de Beja.

O voo tinha sido cuidadosamente estudado e por isso o pi loto conhecia a localização das várias pistas existentes na região e que são usadas pelos aviões da monda química. Referenciou uma e veio finalmente de para baixo. Freios abertos, entrou na final e foi aterrar impecavelmente na pista de terra batida, imobilizando-se, como mandam as regras, no seu primeiro terço.

E no momento em que o planador parou no fim da curta corrida de aterragem, Anneliese Fernandes Pinto, entrou na História da Aviação Portuguesa como a primeira Mulher a alcançar, neste País, a “insígnia de prata” homologada pela FAI, e a averbar no seu brilhante palmarés aeronáutico o recorde nacional de distância em planador: 80 quilómetros!

Agora tinha que tratar do regresso à base.

Um “compadre” alentejano de boa vontade, que acorrera curioso e prestável, ofereceu-se para levar o piloto numa camioneta ao telefone mais próximo. Daí enviou a boa nova da sua feliz aterragem para Évora, onde confiante mas em expectativa, a equipa de apoio aguardava noticias.

O sistema de recuperação movimentou-se imediatamente e partiu para Alfarrobeira de Baixo.

Quando chegou, ainda o Bergfalke e a Anneliese eram alvo da curiosidade do povo da região, que nunca vira um aeroplano tão estranho, que nem sequer tinha “ventoinha”. E, ainda para mais, tripulado por uma mulher com pára-quedas e tudo!

Entretanto, o Chevalley havia feito também a prova dos 50 quilómetros num Rhonlerche, aterrando, sem novidade, em Beja.

Provou-se assim, uma vez mais que a qualidade dos pilotos supera a vetustez das máquinas.

Em Beja preparou-se o regresso, em conjunto, dos dois planadores.

O comboio aéreo – Auster em Bergfalke e Rhonlerche partiu então triunfalmente para Évora, onde todos aterraram, na doçura da tarde que caía lentamente sobre toda a larga charneca alentejana, abrasada pelo fulgor do sol poente.

J.M. Sardinha. Revista do Ar. Aero Club de Portugal. Fotos, do arquivo pessoal de Duarte Fernandes Pinto.

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