Parem de julgar

A propósito de várias NOTÍCIAS DO ACIDENTE DA JET ARIWAYS GOA 9W ocorrido na Índia, o Piloto acidentado escreve uma carta contundente. Pode ver a NOTICIA VIDEO AQUI.

se o piloto ficar vivo crucifiquem-no, se morrer atribuam-lhe a culpa

A aviação é uma profissão estranha. Sou absolutamente apaixonado por ela até à morte, mas a parte estranha de tudo isto será se eu encontrar o fim da minha vida aos comandos do meu avião, o mais provável é eu ser dado como culpado.

Como piloto, eu serei culpado muito antes de qualquer prova ser apresentada. Serei culpado pelos meios de comunicação social e pelo povo. Serei culpado pelos passageiros se estes sobreviverem. Passada uma semana, depois das caixas negras ou dos CVR serão analisados então, talvez cheguem à conclusão que a culpa não era minha. Que eu lutei desesperadamente pela esperança no meio do caos até meu último suspiro.

Infelizmente, isso não terá nunca um tão apelativo título de jornal quanto “erro piloto” ou “piloto sai de pista ao alinhar para a descolagem“.

Na verdade, o que aconteceu nada teve a ver com o alinhamento de pista para descolagem, os acontecimentos que levaram a azarada tripulação ao acidente devido uma saída de pista “veer off runway” parando a escassos metros do muro periférico do Aeroporto de Dabolim no dia 27 de Dezembro.

Como eu gostaria de poder explicar conceitos como “impulso assimétrico” para os que julgaram silenciosos sentados num sofá a ver a notícia. Como é que consigo explicar a alguém o que custa controlar 27000 Libras de potência assimétricamente. Como é que consigo explicar a todos eles como estes mesmos 27.000 libras de potência ficaram de repente em sentidos opostos?

A maioria das pessoas provavelmente nem sequer sabe o que é um braço ou par de apoio “arm or couple moment”. Muitas dessas pessoas até abandonaram a física no 8º ano pois era muito complexa. Dito isto e ainda assim culpam a máquina humana que ganha seu dia a dia, colocando em prática diariamente matéria que levou todos estes julgados a desistir no 8º ano por ser muito complicado.

Para ser honesto é repugnante – voar este tipo de passageiros e assumir a responsabilidade pela sua vida, por muito longa que possa ser.

Como é que eu explico não ser capaz de ver três luzes do caminho de rolagem “taxiway” à minha frente para esta gente que diz que “o avião aterra em automático mesmo com nevoeiro cerrado“? Como?

É com muita frustração que estou a escrever isto. Ainda me lembro do meu velho instrutor de cabelos grisalhos dizer: “Filho, neste mundo da aviação civil, é melhor ser um piloto anónimo sem rosto que faz o seu trabalho e vai para casa!

Na altura não entendi esta expressão, mas agora, mais do que nunca, eu entendo-a totalmente. E a parte triste é que não importa se é um Cactus 1511 com o Sully ou um avião Jet Airways Goa 9W.

Infelizmente, com a tecnologia moderna cada vez mais avançada quer em casa quer no local de trabalho, o ser humano tornou-se o elo mais fraco. Devia-se enfatizar ou fazer sobressair mais que o Ser Humano é o elo mais forte. Sem eles a desligar o motor defeituoso, o avião poderia ter avançado de encontro ao terminal de passageiros, aumentando as estatísticas de perdas de vida.

Como apelo para o público não ligado à aviação, acreditem que nós pilotos amamos o que fazemos e nunca iremos colocar a vida de ninguém em perigo. Também somos filhos, filhas, esposas, maridos ou  pais, assim como qualquer um de vocês. Nós não saímos do “reino de Asgard no leme destas aeronaves de metal”. Foram preciso anos de trabalho árduo para conseguir ser piloto.

Comunicação social, este é um apelo para todos: São vocês que sensacionalizam a nossa profissão com escândalos e boatos. Construam a imagem correcta dos pilotos em todo o mundo. Digam às pessoas que estamos lá para salvar vidas, não para tirá-las. Façam um esforço sério e honesto para redimir o vosso nome pois “estiverem de pé perante os portões do céu, muito provavelmente terão o barqueiro removê-los do barco”.

Eduquem as massas – aqueles que vocês manipulam para obter mais vendas e visualizações – para os factos reais de impulso, sustentação, peso e arrasto. Expliquem-lhes o que acontece do início ao fim, o que acontece aquando da descolagem até à aterragem, ao tocar na Pista.

Ensinem-lhes o que acontece quando olham lá para fora da janela sentados no seu banco e vêem o vento na asa a deslizar e que em todas aquelas partes em movimento há sempre uma mão a pilotar o pássaro de metal gigante através dos céus.

José Rocha tradução e adaptação.  31 de Dezembro de 2016. Artigo original no Daily O escrito na secção Variety, Dailybite no dia 28 de Dezembro de 2016.

 

One comment

  • António Palma

    Excelente artigo.
    Na minha modesta opinião, muito bem escrito e escrito de uma perspectiva pouco comum mas extraordináriamente verdadeira.
    Acrescentava só, se me é permitido, que na Aviação, a fronteira entre ser-se um Piloto bestial e ser-se uma besta, é muito ténue.

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