Uma espécie de reportagem – Projecto Lusitânia 100

Partindo do pressuposto de que em 2022 se comemora o centenário da Primeira Travessia Aérea do Atlântico Sul por Gago Coutinho e Sacadura Cabral, um conjunto de cidadãos se reuniu pelos idos anos de 2012 e se transformaram numa associação sem fins lucrativos, tendo como objectivo comemorar este feito, sob variadas formas e principalmente, no reeditar a mesma viagem aérea numa réplica a construir do avião original.

Gago Coutinho e Sacadura Cabral

Lusitânia foi o nome dado à aeronave que em 1922 fez a 1ª travessia aérea do atlântico sul, sendo um hidroavião Fairey IIID da Aviação Naval, devidamente adaptado para o efeito, tendo como tripulação: o Almirante Gago Coutinho (navegador) e Sacadura Cabral (piloto).

A apresentação do projecto foi efectuada pelo Presidente da Associação Lusitânia 100 Engenheiro João Moura Ferreira e pelo Engenheiro Pinto Basto, da qual daremos o nosso testemunho, na medida do possível com o material que recolhemos.

Engenheiro João Moura Ferreira      Engenheiro Pinto Basto

Alguma Bibliografia sob o tema:

Projecto Lusitânia 100, a 19/12/2012, filmado por Guilhermino Pinto e publicado:

https://www.youtube.com/watch?v=zxbZzBf97VM

Primeira Travessia Aérea do Atlântico Sul, a 21/09/2011, publicado por Alexandre Abreu:

https://www.youtube.com/watch?v=lBWmmnY3tEg

Comunidade Lusitânia 100 no facebook

https://www.facebook.com/Lusit%C3%A2nia-100-543979875675906/

Blogue da Banda Desenhada, Atlântico Sul pelos Ares

http://bloguedebd.blogspot.pt/2013/08/bd-e-historia-de-portugal-3-atlantico.html

Comunidade Descolando de Lisboa facebook

https://www.facebook.com/descolandodeLISBOA

Primeira travessia aérea do atlantico – 17 de Junho de 1922, Dulce Rodrigues

http://www.dulcerodrigues.info/historia/pt/efemeride_travessia_aerea_1922_pt.html

Esta ideia surgiu na sequencia de duas iniciativas semelhantes, mas de resultados diversos.

Projecto Lusitânia 50

A primeira denominada Lusitânia 50, teve como resultado do esforço de um conjunto de pessoas lideradas pelo Engenheiro Lima Basto, na construção de uma réplica à escala original do avião Fairey III – Vera Cruz, actualmente exposto no Museu de Alverca.

Em 1971 a direcção da OGMA decidiu construir uma replica do Santa Cruz, contactando para o efeito o Engenheiro Lima Basto, mas em tempo recorde e impossível de concretizar.

Rapidamente se montou uma equipa, efectuados desenhos em papel e croquis, tendo-se percebido rapidamente de que não havia nem madeira nem tempo para a construção. Assim como medida de recurso optou-se por utilizar tubo de aço disponível de secção quadrada, soldaduras e em 3 dias a fuselagem ficou completa. Posteriormente as senhoras “enteladeiras” trataram de entelar a fuselagem.

Relativamente ao motor, contra a espectativa de o receberem, também aqui o engenho e a arte levaram a equipa a construir um motor Rolls Royce, V3 de 350cv idêntico ao original.

Projecto Lusitânia 75

 

A segunda iniciativa denominada Lusitânia 75, (1990-1998) teve como resultado a recolha de inúmera documentação da época e na elaboração de plantas e modelação da réplica da aeronave em vista de ser construída, na época da EXPO 98.

Por razões políticas de mudança dos dirigentes, há altura, da FAP e da Expo 98 e razões de ordem financeira, não foi possível realizar atempadamente a construção das aeronaves.

Neste projecto, sendo o seu objectivo construir uma réplica voável, foi recolhida inúmera informação e arquivo sobre o tema e efectuado um projecto de características culturais envolvendo escolas secundárias. Como resultado deste projecto resultaram dois estudos de importância relevante:

O Estudo Estrutural de Engenharia e o Estudo de Aerodinâmica.

Estes documentos serão vitais, para a terceira iniciativa de que iremos reportar.

Projecto Lusitânia 100

 

A terceira iniciativa Lusitânia 100, é aquela que iremos reportar, com base nos contactos estabelecidos com os seus promotores e na apresentação efectuada a 30 de Março de 2106 no palácio da independência em Lisboa e na recolha de informação na internet.

Esta nova iniciativa começou em 2012 tendo como objectivo homenagear a 1ª travessia aérea do atlântico sul, a preservação da memória colectiva e fortalecer os laços internacionais dos Países envolvidos Portugal, Espanha (Canárias), Cabo Verde e Brasil.

Pretende-se fazer um estudo aprofundado das aeronaves Fairey III e construir 2 réplicas voáveis de fuselagem comum.

Fairey III

Primeiro construir uma réplica do Santa Cruz e depois migrar para o Lusitânia, que tinha uma envergadura de asas e flutuadores maior.

Na primeira fase, irão as aeronaves ser equipadas com trens de aterragem convencionais, de forma a poder preparar a equipa de pilotagem com mais facilidade. Numa fase posterior serão equipadas com flutuadores, para a execução da travessia.

Neste momento já existem 3 candidatos para pilotos destas aeronaves.

Dentro do planeamento do Projecto existem inúmeras etapas e fases a cumprir das quais podemos destacar:

 

Cultura

Promover o envolvimento dos jovens, agregar a comunidade portuguesa, devolver esta primeira travessia ao panorama internacional ao qual tem estado desligada e onde nem no Wikipedia aparece.

Museu

Documentar historicamente esta travessia, biografar as vidas dos seus protagonistas, visitar escolas, incentivar vocações técnicas e a afirmação da história da aeronáutica portuguesa.

Financiamento

Procura de patrocinadores empresariais e de mecenato com contrapartidas fiscais conforme outras iniciativas internacionais das quais o Solar Impulse é um exemplo de referência.

Cronograma

2016-2017 – Planeamento, Eventos Culturais, Projecto Técnico;

2017 – Instalações, começo da construção;

2021-22 – Investimento mais importante, com a realização da travessia e da musealização;

O que procuram

Pessoas motivadas e empenhadas

Local para a construção

Projecto de Engenharia

Financiamento

Enquadramento do Projecto

Este projecto que se iniciou há cerca de 4 anos pretende trazer uma grande adesão do público às comemorações dos 100 anos da 1ª Travessia Aérea do Atlântico Sul.

É necessário para o conhecimento do que significou esta travessia, ter em conta a época em que se verificou e os meios técnicos que existiam à época.

A aeronave escolhida para a travessia, foi um avião monomotor muito grande que não dispunha de meios autónomos de navegação nem de radio telecomunicações TSF (por opção da tripulação).

Foi escolhida uma aeronave anfíbia, dado que a grande maioria da travessia seria efectuada por mar.

A aeronave escolhida e disponível para o efeito era um Biplano Fairey III modelo D ou C, que era um bombardeiro marítimo de grande raio de acção, devidamente adaptado para o efeito.

O Lusitânia (a aeronave de maior envergadura de asas) era de grande envergadura, equipado com grandes flutuadores, desproporcionado e por essas razões complicado de pilotar.

Na preparação a viagem fizeram um võo com sucesso até à ilha da Madeira que serviu para testar equipamentos e os novos métodos de navegação.

As etapas da viagem foram Lisboa, Canárias, Cabo Verde, Penedos S. P. e S. Paul, ilha de Fernando de Noronha, costa do Brasil e Rio de Janeiro.

Durante a primeira parte da viagem no Lusitânia, conseguiram um feito inédito até á época, que foi voarem durante 11 horas e meia em mar aberto e conseguirem chegar ao reabastecimento efectuado nuns rochedos no meio do oceano, só possíveis de atingir com uma navegação absolutamente perfeita e exacta.

O primeiro avião Lusitânia fez a primeira parte da viagem, até um acidente na amaragem, perto dos penedos de S. Paul, em que a intervenção de um paquete civil permitiu encontrar a tripulação a colocá-los a salvo.

As aeronaves envolvidas para realizar esta travessia foram denominadas: Lusitânia (Fairey III), o Lusitânia II ou Portugal (Fairey III B) e finalmente o Santa Cruz (Fairey IIID)

A Navegação

Para a realização desta travessia a componente navegação era a questão mais importante e não resolvida há época.

Para navegar recorriam à posição do sol e das estrelas. Era absolutamente necessário conhecer permanentemente a posição da aeronave. Até 1919 a precisão neste tipo de navegação era de até 40 Quilómetros.

Para a realização desta viagem, foram construídas modificações aos equipamentos pré-existentes, de forma a aumentar a precisão da navegação aérea que se caracteriza pela sua deslocação rápida.

Foi aperfeiçoado e introduzido o sextante com nível artificial e foi utilizado um corrector de rumos que permitia calcular a deriva provocada pelo vento.

Para a estima da deriva foram utilizadas balizas de fumo branco, que eram lançadas da aeronave e medidas no seu estabilizador horizontal.

Utilizaram também um taquímetro no centro da aeronave para calcular a posição do sol.

Em termos de posicionamento o piloto e o navegador encontravam-se deslocados para a ré da aeronave, em virtude de os tanques extra de combustível estarem localizados centralmente. A posição da tripulação era sob a forma de tandem desencontrado.

Os métodos utilizados baseavam-se no modelo astronómico, previamente preparado, em que estavam predeterminados os pontos da viagem em que se deviam fazer as medições, onde o navegador utilizava uma tábua de logaritmos e uma carta de projecção cónica secante que lhe facilitava a navegação e a orientação por carta.

A tripulação, optou por não utilizar meios TSF e levar o mínimo de objectos possível de forma a poupar peso, sendo que na lista do que foi transportado estavam 4Kg de comida, 1 garrafa de vinho do porto, livro dos lusíadas e os uniformes de gala dos tripulantes.

Alguma das causas do sucesso poderão ser encontradas pela determinação de uma equipa sólida e com muita experiencia passada, habituada a resolver problemas e a avançar para o conhecimento do desconhecido e um apoio popular em Portugal e no Brasil que lhes permitiu o financiamento de mais duas aeronaves para conseguirem cumprir o desiderato da 1ª travessia aérea, no qual não se pode descurar o apoio do governo português e o empenho do Ministério da Marinha.

Não existem dúvidas de que foram considerados os dois protagonistas como heróis e símbolos de uma ligação entre dois países de língua comum.

Da viagem chegaram-nos o relatório da travessia de Sacadura Cabral e o relatório técnico de navegação de Gago Coutinho, documentos extremamente importantes e que actualmente são património mundial da humanidade UNESCO.

A Associação Lusitânia 100

Esta associação foi criada em 18 de Dezembro de 2013 por escritura sendo os sócios fundadores e signatários: J. Moura Ferreira, J. Munkelt Gonçalves, Jorge Lima Basto e Ricardo Reis.

A primeira reunião da Associação foi efectuada a 08 de Março de 2014 em Lisboa em que os seus órgãos sociais ficaram desta forma constituídos:

Direcção
– Presidente: J. Moura Ferreira
– Secretário: J. Munkelt Gonçalves
– Tesoureiro: Ricardo Reis
– Primeiro Vogal: Jorge Lima Basto
– Segundo Vogal: Jorge Pereira

Conselho Fiscal
– Presidente: Marco Morais
– Secretário: Célia M. Rocha
– Vogal: Filipe Rodrigues

Mesa da Assembleia Geral
– Presidente: Rui Costa Pinto
– Secretário: Fernanda Aguiar
– Vogal: Luís M. Gonçalves

Objectivos e Etapas do Projecto

Aproximando-se o centenário da partida do Lusitânia, foi constituida a Associação Lusitânia 100, cujos objectivos principais são:
– Construir uma réplica voável do hidroavião;
– Realizar a travessia, em 2022;
– Realizar um programa cultural comemorativo.

O que temos:

Uma ideia muito clara do que queremos fazer;

O levantamento das dimensões do avião: as suficientes para definir / iniciar o projecto;
Técnicas de construção: baseadas em documentação oficial, e práticas aprovadas;
Pessoas: interessadas, experientes, e com paixão pela aeronáutica, com competências para ultrapassarem os muitos desafios que vão surgir.

Precisamos de:
– Financiamento
– Espaço adequado para trabalhar
– Recursos humanos, para colaborarem nas diversas actividades.

O que vamos fazer já a seguir:
– Desenhos do hidroavião Fairey IIID, com dados e pormenores, esboços , materiais, medidas, técnicas,
– Marcar um programa detalhado de trabalho
– Obter um espaço, para começar a reunir regularmente a equipa de trabalho.

CRONOGRAMA
2015: Realização de iniciativas culturais;
Início do projecto técnico de construção da réplica do hidroavião.

2016: Realização de iniciativas culturais;
Angariação de fundos (mecenato, patrocínios, etc.)
Fim do projecto técnico de construção da réplica do hidroavião.

2017 a 2020:
Realização de iniciativas culturais;
Construção da réplica do hidroavião.

2021:Iniciativas culturais;
Voos de ensaio, treino e divulgação.

30 de Março de 2022:
Realização da travessia de Portugal ao Brasil;
Inauguração do Museu da Travessia;
Participação na feira internacional de aviação em Farnborough.

Penso que estamos perante um projecto muito interessante e ambicioso, que pretende preservar a história aeronáutica de forma viva e real, musealizando posteriormente o património e espólio recolhido, promovido pela sociedade civil, tão parca de iniciativas louváveis e interessantes como esta em Portugal.

David Ferreira

04 de Abril de 2016

Fotos do autor e de Wikimedia Commons

Nota: Este artigo contem links embebidos em frases a bold, que reencaminham para outros sítios da web de interesse para o assunto do artigo.

Deixar uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *