Gosto muito de Aeronáutica, Porquê? Take Five !

Aeroclube de Portugal: Planadores e Voo à vela Anos 80 do sec XX

Continuação de Take Four..

A partir desta fase da minha vida, percebi que não conseguiria realizar de facto o meu sonho, tinha a alternativa de com o curso e experiência, poder inscrever-me e ser aceite em uma das várias empresas aéreas existentes ou a operar em Portugal, mas optei por não ir por aí.

E fui á procura de emprego.. civil e fora da aviação.

Trabalhei em fábricas, em transportes internacionais TIR, comercialização de roupa e acabei numa empresa de venda computadores, na altura algo espacial ! e daí fiz carreira nos sistemas de informação até à velhice, mas isso não interessa para nada para esta história.

Como poderia agora seguir a minha paixão? Teria de ser nos tempos livres e à minha custa !

Assim comecei a visitar aeródromos, a olhar para a aviação com outros olhos, visitei escolas e inscrevi-me no Aeroclube de Portugal, assinei a sua revista e inscrevi-me para um curso PPP de piloto de planadores que era o mais acessível e que permitia depois progredir para o PPA.

Na altura o AECP tinha um Planador (os antigos denominados pairadores) Blanik e 2 Ronhlerche alemães bilugares, mas a aprendizagem era efectuada nos Ronhlerche.

De notar que o avanço no võo à vela em Portugal foi grandemente impulsionado pela Mocidade Portuguesa e advém (infelizmente) das suas ligações à Alemanha Nazi.

Assim, lá consegui a carteira de aluno piloto de planador e muito satisfeito, me dirigi para as primeiras aulas práticas na Base Aérea nº 1 em Sintra.

Ia aos fins de semana e rapidamente comecei a perceber, que isto de aprender a pilotar tinha pouco a ver com o võo, mas muito com a aprendizagem teórica e muita força física para arrumar aeronaves e uma paciência infinita tentar arranjar uma vaga para ter a aula prática.

Mas lentamente, lá comecei a ter aulas práticas num planador que era uma pedra, ainda do pós-guerra. Rapidamente lá ganhei o jeito, com a muito eficaz ajuda do meu instrutor o Sr. Baptista, pessoa muito bem educada, simpática e um camarada.

Fui largado na Base Aérea de Sintra, no meu primeiro võo solo, onde só senti verdadeiramente o prazer e aperto no estômago, quando puxei a alavanca e soltei o cabo do avião rebocador a uns 1500 pés, cerca da Serra de Sintra. No planador como não há motor não estamos preocupados que pare ou se incendeie, muito simples e prático!

Os voos duravam pouco, dado que os planadores do AECP tinham um coeficiente de planeio muito baixo, mas era voar e sem nenhum barulho, lindo de morrer !

O fim do curso normalmente era realizado no Aeródromo de Évora, em regime de internato na altura do verão, durante 1 semana. Foi uma experiencia muito boa, neste local a meteorologia era apropriada para o planeio, muito calor, muitas térmicas, que nos permitiam começar a perceber o que é planar mais a sério, aproveitando as térmicas. Vivíamos numa casa cerca da pista, com camaratas e tomávamos banho com a água retirada à mão do poço do aeródromo.

Fiz exame no fim da semana e fui aprovado por um examinador super exigente, mal disposto sempre com uma ar muito sério, de quem tínhamos muito medo, era como se diz o mau da fita, da DGAC o Sr. Raimundo. Era o stress de fazer tudo certinho, ver se ele ficava satisfeito e no meio tentar voar o aparelho.

Nesta época, depois do curso, era muito difícil de voar com regularidade, o AECP não tinha aparelhos suficientes e comecei a pensar como haveria de voar de outra forma com mais frequência !?

Comecei a ler que a NASA tinha descoberto um novo tipo de aeronave, que parecia um papagaio gigante, para as capsulas abrirem depois da sua reentrada na atmosfera, que desde meados dos anos 70 do século passado, os americanos adaptaram para o voo à vela com um piloto suspenso por um arnês. Falei com vários conhecidos e no AECP à época (1982) foi criado um curso para Piloto de Asa Delta.

Falei com o Aeroclube e disseram-me que teria de me inscrever e iria ter as aulas teóricas no Instituto Superior Técnico e que as práticas seriam numa encosta de Santa Iria da Azóia. Foi nessa época, que conheci a pessoa que lançou esta modalidade em Portugal, o José Manuel Rebelo da Costa, que posteriormente lançou o Campo de Võo da Azambuja.

Lá fiz as aulas teóricas no IST, penso que com o Prof. Brederode e avancei para o que queria mesmo, voar nestas novas asas! Lá fui até Santa Iria da Azóia, numa encosta bastante pronunciada, subimos a encosta, mas mais uma vez, apercebi-me que aquilo pesava que se fartava.. tudo é difícil !

Éramos cerca de 8 alunos e haviam 2 asas deltas do primeiro tipo, basicamente tubos e uma tela simples de uma face, as aulas eram muito simples, como segurar a asa, como colocar o arnês onde íamos pendurados, fazer uma série de corridas à vez, sem voar, de forma a saber controlar a asa à descolagem, como subir, descer, esquerda e direita. Depois de cada experiência, o José Manuel lá explicava o que tínhamos feito mal e bem. Uma das questões principais era o saber parar sem fazer o mergulho final, no qual aí uma pessoa podia-se magoar.

Claro que o vento tinha de ser fraco, mas de frente, não é propriamente boa ideia descolar com vento cruzado, o resultado é normalmente mau. Já nessa altura usávamos normalmente capacete, óculos de protecção e luvas.

Depois de vários dias de aulas ao fim de semana, quando estava bom tempo e vento de feição lá conseguimos concluir o curso pratico e passámos a ser pilotos de Voo Livre ou Asa Delta.

1985_Zé_Asa Delta_0194Depois destas experiências em Santa Iria da Azóia (entretanto nos anos 90 foi interdita para este tipo de voo, porque as performances das asas aumentaram muito e interferiam com as aeronaves a aterrar no aeroporto de Lisboa), começamos a evoluir para desafios maiores, estou a falar da Serra da Estrela, Figueira da Foz, Bucelas, Guincho, Serra da Arrábida, o Montinho (perto de Torres Vedras) e mais alguns locais, que eram ideias para a prática de asa delta e que permitiam võos de duração muito maior, passámos dos segundos no ar, para largas dezenas de minutos e mais tarde para os “pro” de horas.

Havia uma pequena comunidade que se juntava no fim de semana para realizar esta prática, levávamos as companheiras, alguns os filhos e haviam sempre um piquenique para almoço e depois havia alguma jantarada. Posso destacar para além do José Manuel, o Mário Beirão (falecido prematuramente), o Ricardo Costa, o Miguel Santana, o José João Figueiredo, José João Rebelo e muitos outros de que o tempo, infelizmente, me fez esquecer os seus nomes.

Entretanto, como esta actividade atraía imenso público, que queriam ver estes rapazes a voar asas de várias cores e formatos que saltavam das montanhas e vinham aterrar junto às povoações, começou pela iniciativa de inúmeras Câmaras Municipais, que nos seus festejos ou comemorações do seu foral, convidarem os praticantes de asa delta, para participar nos festejos com demonstrações aéreas variadas, para deleite dos habitantes e visitantes.

Normalmente era sempre em vilas ou cidades com montanhas à volta, portanto sempre lindas, onde éramos recebidos como heróis pelos responsáveis locais, bem tratados, alojados em bons hotéis e com comida e bebida à descrição, levávamos as companheiras e filhos e todos se divertiam ao ar livre, uns a ver e comentar outros a voar.

Entretanto tive de evoluir e comprei uma asa delta em segunda mão, um arnês e pasme-se um paraquedas de segurança que ia à frente na barriga, de abertura manual.

A recordação mais fantástica, foi a efectuada durante umas comemorações em Seia, em que descolávamos a mais de 1300 metros de altitude, numa encosta da Serra da Estrela e aterrávamos na pista de Seia, cerca da cidade.

Para perceberem bem, é necessário uma zona de acesso de preferência de carro para o transporte das asas fechadas, Depois é necessário um espaço plano, perto local de descolagem, onde se montam as asas e se trata de toda a logística de preparação para o võo.

Em termos de tipologias de võos possíveis com a Asa Delta: temos o võo orográfico que é aquele que se pratica nas encostas das montanhas, em que quando o vento sopra, provoca uma ascendente que permite a sua prática de forma muito confortável.

O võo em térmicas, é mais sofisticado, aproveita as correntes ascendentes de ar quente, que como não se veem, exige conhecimentos mais avançados de võo livre. É este tipo que permite voos entre Portugal e Espanha de mais de 200Km.

Depois temos um tipo que eu chamo, “o võo da tanga” que era aquele que eu praticava na altura, que resumidamente podemos explicar de forma simples, sempre a descer até uma clareira sem árvores ou cabos..

Quando estamos preparados deslocamos a asa às costas já com o arnês colocado, óculos, capacete, luvas, para o local da descolagem. É reverificado o vento, as descolagens são feitas uma de cada vez com os colegas pilotos a segurar as asas quando o vento é mais forte. Para a descolagens são utilizadas vertentes da encosta, contra o vento de inclinação razoável que permita uma corrida de descolagem livre de obstáculos, normalmente depois da vertente é o vazio, mas mesmo para quem sofra de vertigens, como é o meu caso, não faz impressão nenhuma, porque já estamos em vôo!

Depois destas preparações todas e de estarmos psicologicamente “numa de ir” (o que é muito importante, pode estar tudo bem e não apetecer, não é “mariquice”, é mesmo assim), é começar a correr com a asa nivelada e após poucas dezenas de metros a asa leva-nos para o võo.

1986_AsaDelta_Daniel_0248Assim fiz pela primeira vez um voo livre á séria! Logo após descolar, até fiquei meio gago, com a beleza e o quadro visual à minha frente e com um aeródromo muito pequenino e muito longe. Claro que não fiz voo à vela nenhum, fui descendo devagarinho, a ver se chegava ao raio da pista sem me escangalhar, mas isto nunca se diz. Mas o que me impressionou foi lá do alto ver as pessoas nas casas e na rua, ouvia tudo o que elas diziam e estavam longíssimo (não esquecer que aqui não há barulho absolutamente nenhum e vamos deitados com a asa por cima). Tipo estar a olhar para aquelas montagens dos comboios da Marklin em miniatura, mas à séria. Para mim foi o melhor võo da minha vida!

E de facto de todas as máquinas voadoras que tenho experimentado ao longo da vida, a Asa Delta é aquela que se aproxima daqueles sonhos que temos de que voarmos sem asas! e o resto é música celestial.

Como fui directo para o aeródromo de Seia, qual foi o meu espanto, que cheguei alto de mais e tive de fazer várias manobras para queimar altitude, a malta da assistência aplaudia “à brava”, mal sabiam eles que eu não percebia nada daquilo. Mas uma pessoa fica satisfeita !! pode ser sem razão, mas lá isso fica!!

Depois éramos rodeados de populares, que vinham ver, para eles éramos quase “os astronautas lusos” e levavam a família toda e sempre copos de vidro, um jarro de vinho tinto, umas sandes de presunto e paio e muitas vezes até “tem de experimentar a minha aguardentezinha” e era uma verdadeira alegria para todos, depois no regresso eram as dores de cabeça, mas enfim eram os ossos daquele ofício.

A continuar

David Ferreira

13/09/2015

One comment

  • José Brás

    Porque se fala de Asa Delta, gostaria de saber onde fica o papel do Ginja, não o cavaleiro tauromáquico Ribeiro Teles que tem esta alcunha entre os amigos, mas o piloto da TAP que terá sido o primeiro português a voar Asa Delta no Rio e que a trouxe para Portugal. não é grave se o seu nome não for referido mas acho que “o seu a seu dono”, continua a valer.
    Desse grupo que se reunia na prática e no “acampamento”,faltará também o nome de Salvador Nogueira.
    De resto, acho os “takes” extremamente interessantes.

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