Uma espécie de reportagem – Projecto Lusitânia 100

Partindo do pressuposto de que em 2022 se comemora o centenário da Primeira Travessia Aérea do Atlântico Sul por Gago Coutinho e Sacadura Cabral, um conjunto de cidadãos reuniu-se pelos idos anos de 2012 e o encontro transformou-se numa Associação sem fins lucrativos, tendo como objectivo comemorar este feito, sob variadas formas mas principalmente, no reeditar da mesma viagem aérea numa réplica a construir segundo a aeronave original.

Lusitânia foi o nome dado à aeronave que em 1922 fez a 1ª travessia aérea do atlântico sul, sendo o modelo um hidroavião Fairey IIID da Aviação Naval, devidamente adaptado para o efeito, tendo como tripulação: o Almirante Gago Coutinho (navegador) e Sacadura Cabral (piloto).

A apresentação do projecto foi efectuada pelo Presidente da Associação Lusitânia 100, Engenheiro João Moura Ferreira e pelo Engenheiro Lima Basto, da qual daremos o nosso testemunho, na medida do possível com o material que recolhemos.

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Esta ideia surgiu na sequência de duas iniciativas semelhantes, mas com resultados embrionários e diversos.

A primeira denominada Lusitânia 50, teve como resultado do esforço de um conjunto de pessoas lideradas pelo Engenheiro Lima Basto, na construção de uma réplica à escala original do avião Fairey III – Vera Cruz, actualmente exposto no Museu de Alverca.

Em 1971 a direcção da OGMA decidiu construir uma réplica do Santa Cruz, contactando para o efeito o Engenheiro Lima Basto, mas em tempo recorde e impossível de concretizar.

Rapidamente se montou uma equipa, efectuados desenhos em papel e croquis, tendo-se percebido rapidamente de que não havia nem madeira, nem tempo para a construção. Assim como, medida de recurso optou-se por utilizar tubo de aço disponível de secção quadrada, soldaduras e em 3 dias a fuselagem ficou completa. Posteriormente, as senhoras “enteladeiras” trataram de entelar a fuselagem.

Relativamente ao motor, contra a expectativa de o receberem, também aqui o engenho e a arte levaram a equipa a construir um motor Rolls Royce, V3 de 350cv idêntico ao original.

A segunda iniciativa denominada Lusitânia 75, (1990-1998) teve como resultado a recolha de inúmera documentação da época e na elaboração de plantas e modelação da réplica da aeronave em vista de ser construída, na época da EXPO 98.

Por razões políticas de mudança dos dirigentes, há altura, da Força Aérea Portuguesa e da Expo 98 mas também razões de ordem financeira, não foi possível realizar atempadamente a construção das aeronaves.

Neste projecto, sendo o seu objectivo construir uma réplica voável, foi recolhida inúmera informação e arquivo sobre o tema e efectuado um projecto de características culturais envolvendo escolas secundárias. Como resultado deste projecto resultaram dois estudos de importância relevante: O Estudo Estrutural de Engenharia e o Estudo de Aerodinâmica.

Estes documentos serão vitais, para a terceira iniciativa de que iremos reportar.

Projecto Lusitânia 100

A terceira iniciativa Lusitânia 100, é aquela que iremos reportar, com base nos contactos estabelecidos com os seus promotores e na apresentação efectuada a 30 de Março de 2016 no Palácio da Independência em Lisboa e na recolha de informação na internet.

Esta nova iniciativa começou em 2012 tendo como objectivo homenagear a 1ª Travessia Aérea do Atlântico Sul, a preservação da memória colectiva e fortalecer os laços internacionais dos Países envolvidos Portugal, Espanha (Canárias), Cabo Verde e Brasil.

Pretende-se fazer um estudo aprofundado das aeronaves Fairey III e construir 2 réplicas voáveis de fuselagem comum.

Primeiro, construir uma réplica do Santa Cruz e depois migrar para o Lusitânia, que tinha uma envergadura de asas e flutuadores maiores.

Na primeira fase, irão as aeronaves ser equipadas com trens de aterragem convencionais, de forma a poder preparar a equipa de pilotagem com mais facilidade. Numa fase posterior serão equipadas com flutuadores, para a execução da travessia.

Neste momento já existem 3 candidatos para pilotos destas aeronaves.

Dentro do planeamento do Projecto Lusitânia 100 existem inúmeras etapas e fases a cumprir das quais podemos destacar:

Cultura

Promover o envolvimento dos jovens, agregar a comunidade portuguesa, devolver esta primeira travessia ao panorama internacional ao qual tem estado desligada e onde nem no “Wikipedia” aparece.

Museu

Documentar historicamente esta travessia, biografar as vidas dos seus protagonistas, visitar escolas, incentivar vocações técnicas e a afirmação da história da aeronáutica portuguesa.

Financiamento

Procura de patrocinadores empresariais e de mecenato com contrapartidas fiscais, conforme outras iniciativas internacionais das quais o Solar Impulse é um exemplo de referência.

Cronograma

2016-2017 – Planeamento, Eventos Culturais, Projecto Técnico;

2017 – Instalações, começo da construção;

2021-22 – Investimento mais importante, com a realização da travessia e da musealização;

O que procuram

Pessoas motivadas e empenhadas

Local para a construção

Projecto de Engenharia

Financiamento

Enquadramento do Projecto

Este projecto que se iniciou há cerca de quatro anos pretende trazer uma grande adesão do público às comemorações dos 100 anos da 1ª Travessia Aérea do Atlântico Sul.

É necessário para o conhecimento do que significou esta travessia, ter em conta a época em que se verificou e os meios técnicos que existiam à época.

A aeronave escolhida para a travessia, foi um avião monomotor muito grande que não dispunha de meios autónomos de navegação nem de rádio telecomunicações TSF (telegrafia sem fios) por opção da tripulação.

Foi escolhida uma aeronave anfíbia, dado que a grande maioria da travessia será efectuada por mar.

A aeronave escolhida e disponível para o efeito era um Biplano Fairey III modelo D ou C, que foi um bombardeiro marítimo de grande raio de acção, devidamente adaptado para o efeito.

O Lusitânia (a aeronave de maior envergadura de asas) foi de grande envergadura, equipado com grandes flutuadores, desproporcionado e por essas razões complicado de pilotar.

Na preparação a viagem fizeram um voo com sucesso até à ilha da Madeira que serviu para testar equipamentos e os novos métodos de navegação.

As etapas da viagem foram Lisboa, Canárias, Cabo Verde, Penedos S. P. e S. Paul, Ilha de Fernando de Noronha, costa do Brasil e Rio de Janeiro.

Durante a primeira parte da viagem no Lusitânia, conseguiram um feito inédito até á época, que foi voarem durante onze horas e meia em mar aberto e conseguirem chegar ao reabastecimento efectuado nuns rochedos no meio do oceano, só possíveis de atingir com uma navegação absolutamente perfeita e exacta.

O primeiro avião Lusitânia fez a primeira parte da viagem, até ao acidente na amaragem, perto dos penedos de S. Paul, em que a intervenção de um paquete civil permitiu encontrar a tripulação a colocá-los a salvo.

As aeronaves envolvidas para realizar esta travessia foram denominadas: Lusitânia (Fairey III), o Lusitânia II ou Portugal (Fairey III B) e finalmente o Santa Cruz (Fairey IIID)

A Navegação

Para a realização desta travessia a componente navegação era a questão mais importante e não resolvida há época.

Para navegar recorriam à posição do sol e das estrelas. Era absolutamente necessário conhecer permanentemente a posição da aeronave. Até 1919 a precisão neste tipo de navegação era de até quarenta quilómetros.

Para a realização desta viagem, foram feitas algumas modificações aos equipamentos pré-existentes, de forma a aumentar a precisão da navegação aérea que se caracteriza pela sua deslocação rápida.

Foi aperfeiçoado e introduzido o Sextante com nível artificial e foi utilizado um corrector de rumos que permitia calcular a deriva provocada pelo vento.

Para a estima da deriva foram utilizadas Balizas de fumo branco, que eram lançadas da aeronave e medidas no seu estabilizador horizontal.

Utilizaram também um taquímetro no centro da aeronave para calcular a posição do sol.

Em termos de posicionamento o piloto e o navegador encontravam-se deslocados para a ré da aeronave, em virtude de os tanques extra de combustível estarem localizados centralmente. A posição da tripulação era sob a forma de tandem desencontrado.

Os métodos utilizados baseavam-se no modelo astronómico, previamente preparado, em que estavam predeterminados os pontos da viagem em que se deviam fazer as medições, onde o navegador utilizava uma tábua de logaritmos e uma carta de projecção cónica secante que lhe facilitava a navegação e a orientação por carta.

A tripulação, optou por não utilizar meios TSF e levar o mínimo de objectos possível de forma a poupar peso, sendo que na lista do que foi transportado constavam quatro quilos de comida, uma garrafa de vinho do porto, livro dos lusíadas e os uniformes de gala dos tripulantes.

Alguma das causas do sucesso poderão ser encontradas pela determinação de uma equipa sólida e com muita experiência passada, habituada a resolver problemas e a avançar para o conhecimento do desconhecido e um apoio popular em Portugal e no Brasil que lhes permitiu o financiamento de mais duas aeronaves para conseguirem cumprir o desiderato da 1ª travessia aérea, no qual não se pode descurar o apoio do governo português e o empenho do Ministério da Marinha.

Não existem dúvidas de que foram considerados os dois protagonistas como heróis e símbolos de uma ligação entre dois países de língua comum.

Da viagem chegaram-nos o relatório da travessia de Sacadura Cabral e o relatório técnico de navegação de Gago Coutinho, documentos extremamente importantes e que actualmente são património mundial da humanidade UNESCO.

A Associação Lusitânia 100

Esta associação foi criada em 18 de Dezembro de 2013 por escritura sendo os sócios fundadores e signatários: J. Moura Ferreira, J. Munkelt Gonçalves, Jorge Lima Basto e Ricardo Reis.

A primeira reunião da Associação foi efectuada a 08 de Março de 2014 em Lisboa em que os seus órgãos sociais ficaram desta forma constituídos:

Direcção
– Presidente: J. Moura Ferreira
– Secretário: J. Munkelt Gonçalves
– Tesoureiro: Ricardo Reis
– Primeiro Vogal: Jorge Lima Basto
– Segundo Vogal: Jorge Pereira

Conselho Fiscal
– Presidente: Marco Morais
– Secretário: Célia M. Rocha
– Vogal: Filipe Rodrigues

Mesa da Assembleia Geral
– Presidente: Rui Costa Pinto
– Secretário: Fernanda Aguiar
– Vogal: Luís M. Gonçalves

Objectivos e Etapas do Projecto

Aproximando-se o Centenário da partida do Lusitânia, foi constituída a Associação Lusitânia 100, cujos objectivos principais são:
– Construir uma réplica voável do hidroavião;
– Realizar a travessia, em 2022;
– Realizar um programa cultural comemorativo.

O que temos:

Uma ideia muito clara do que queremos fazer; O levantamento das dimensões do avião: as suficientes para definir / iniciar o projecto; Técnicas de construção: baseadas em documentação oficial, e práticas aprovadas.

Pessoas: interessadas, experientes, e com paixão pela aeronáutica, com competências para ultrapassarem os muitos desafios que vão surgir.

Precisamos de:
– Financiamento
– Espaço adequado para trabalhar
– Recursos humanos, para colaborarem nas diversas actividades.

O que já conseguimos:
– Desenhos do hidroavião Fairey IIID, com dados e pormenores, esboços , materiais, medidas, técnicas,
– Marcar um programa detalhado de trabalho
– Obter um espaço, para começar a reunir regularmente a equipa de trabalho.

CRONOGRAMA
2015: Realização de iniciativas culturais;
Início do projecto técnico de construção da réplica do hidroavião.

2016: Realização de iniciativas culturais;
Angariação de fundos (mecenato, patrocínios, etc.)
Fim do projecto técnico de construção da réplica do hidroavião.

2017 a 2020:
Realização de iniciativas culturais;
Construção da réplica do hidroavião.

2021:Iniciativas culturais;
Voos de ensaio, treino e divulgação.

30 de Março de 2022:
Realização da travessia de Portugal ao Brasil;
Inauguração do Museu da Travessia;
Participação na feira internacional de aviação em Farnborough.

Penso que estamos perante um projecto muito interessante e ambicioso, que pretende preservar a história aeronáutica de forma viva e real, musealizado posteriormente o património e espólio recolhido, promovido pela sociedade civil, tão parca de iniciativas louváveis e interessantes como esta em Portugal.

David Ferreira publicado no CAVOK.pt em 4 de Abril de 2016. Republicado no CAVOK.pt Março de 2020. Fotos retiradas do Projecto Lusitânia 100, portal Facebook. Filme da conferência dada pela organização no Museu do Ar, por Guilhermino Pinto. Filme da Primeira Travessia Aérea do Atlântico Sul, a 21/09/2011, autoria de Alexandre Abreu.

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