FISIOLOGIA DE VOO – Alguns aspectos menos comentados

Há já muitos anos que quando voo acompanhado, e sobretudo se se trata de alguém que não conheço e que não é colega de voo, no “pre-flight”, a primeira pergunta que lhes faço é a seguinte: “desculpe-me, mas já foi a casa de banho?”

Em 99% dos casos, olham para mim, hesitam, e acabam mesmo por ir a casa de banho. O que é uma boa ideia.

Estes aspectos, da satisfação das necessidades fisiológicas antes do voo (contra durante o voo…) são pouco analisadas nas aulas teóricas. Suponho que se considera uma matéria de tal forma de “bom senso”, que nem sequer é analisada.

Mas devia sê-lo! Um cockpit de avião de dois lugares, ou mesmo de quatro, constitui um ambiente “repressivo”, apertado e quente. Especialmente para quem não voa normalmente. A combinação da excitação, da antecipação e ansiedade antes e durante o voo, pode provocar reacções fisiológicas que a acontecerem, podem ter consequências no mínimo embaraçosas e conturbantes, e potencialmente escalar para verdadeiras emergências de consequências inesperadas e muito perigosas.

Exagero? Tenho a certeza que não. E aprendi “à minha custa”! Repetidamente….

Recuemos no tempo, aí para 1990, 1991…Na altura, eu tinha o CS-UBQ, anfíbio, em Aveiro… e o aero clube celebra um acordo com o Hospital de Aveiro, na colaboração de um programa de fundos europeus para tratamento de pessoas com FOBIA DE VOO. A envolvência do aero clube seria o de “largar” estes pacientes no final do tratamento… i.e., levá-los a voar pela primeira vez.

Escolhidos alguns pilotos para este fim, iniciámos operações alguns meses depois. O tratamento destes fóbicos durava cerca de quatro meses, com reuniões semanais no hospital, acompanhamento psiquiátrico e psicológico, com receituário de anti- depressivos e ansiolíticos, conforme cada caso. E muita gente aderiu ao programa.

Este programa foi concebido nos anos oitenta, com a colaboração de identidades aeronáuticas europeias e americanas, com inúmeros estudos etc…era de facto “sério e comprovado”!

A nossa intervenção (como pilotos) consistia em levá-los a voar, com um pre-flight briefing em que explicávamos o que iríamos fazer, cuidadosamente. A conclusão esperada após voo seria de “cura a 100%” perante “exposição directa ao risco”, associada aos quatro meses de tratamento com fármacos.

Mas não comentávamos um aspecto fundamental do voo, que constituía o “âmago do tratamento”, como instruídos pelo staff do hospital: Atingíamos os dois pés, e reduzíamos motor ao ralenti… o paciente apercebia-se então que “o avião não cai”, e curava-se.

Baptizei” algumas dezenas de pessoas. Sem incidentes de maior. Destaco um caso de uma senhora que com os nervos, apoiou a mão esquerda no meu joelho, e apertou, com uma força impressionante (!). Tive que lhe berrar que me largasse o joelho.

Uma outra, que quando meti o motor ao ralenti, anunciou que “tinha feito xixi nas calças”, mas sem consequências. Enfim, “entrei na rotina”.

Até que um dia….desloquei-me a Promaceira, à nossa pista. Tinha um único “paciente” para largar. Apresentei-me. O senhor estava acompanhado da mulher e de uma enfermeira. Por vezes (nem sempre) tal acontecia.

O senhor tinha os olhos brilhantes de expectativa e excitação. Normal. Mas, quando começo a falar-lhe do voo, ainda antes de o sentar no cockpit, o senhor Interrompe-me: “Sabe, tenho dois filhos imigrados, um no Canadá e outro na Austrália…estão fartos de me convidar, até já me mandaram bilhetes, mas tenho pavor sabe, não consigo…”, explico-lhe que “depois de hoje tudo mudará”… o senhor interrompe-me outra vez: ” …pois, pois, olhe tenho a certeza que sim, etc. etc…”. O individuo parece “uma metralhadora” a falar.

Resolvo observá-lo com mais cuidado. Indivíduo nos seus “cinquentas”, tez morena do sol, mãos calejadas, um metro e oitenta, talvez noventa e cinco a cento e cincoquilos, bons dentes, Mercedes moderno… Hummmm, categorizo-o de “agricultor com posses”. Reconfirmo “então, o que faz?” “ahh, tenho umas terras na Bairrada, sou do vinho”. OK, acertei! E pergunto-lhe o nome.

Disfarçadamente, consulto a enfermeira: “Então, ele é sempre assim?” Resposta: ”É uma jóia, adoramo-lo no hospital, mas hoje está assim… mas também é normal, a expectativa sabe…

CAVOK.pt

Decido levá-lo. Tínhamos instruções previas do hospital que se não nos sentíssemos seguros com algum e qualquer paciente, seria preferível não o levar.

Deixo-o falar. E falou até que se calou. Aí, com muito cuidado, sento-o no cockpit. Explico em detalhe o que vou fazer: “olhe, vou ligar o motor, o avião vai vibrar um pouco. Tal é normal. Depois aqueço o motor durante cinco minutos. Depois iremos para a pista. Aí acelero o motor, para verificar todos os sistemas. E vê aquela árvore aí uns cem metros? Será aí que vamos descolar…” etc. etc..

O senhor vai respondendo “sim sim… sim sim… sim, claro, claro… claro, claro, pois, pois pois…

Faço-me a pista. full power, atinjo sessenta e oito quilometros, descolo. Olho pelo canto do olho para o senhor…está de olhos arregalados, boca aberta, dentes cerrados, punhos fechados e apertados…pelo mike aviso-o: “Caaalllmmmaaaa!” Resposta: “sim sim… sim sim… sim sim sim”.

Continuo a subir. Atinjo os mil pés. De repente ouço um gemido do passageiro…e o cockpit é invadido por um cheiro horrível, indescritível. E é um cockpit aberto, a ser fechado… olho para o senhor… este exclama: “Desculpe, desculpe, desculpe!!!

Compreendo instantaneamente que o senhor teve um “acidente”. Receio que entre em pânico. Que se torne violento. Entro em “modo de sobrevivência”. Entretanto o senhor vai “metralhando”, “desculpe desculpe desculpe” vezes sem conta.

Só me apetece berrar-lhe: “oh homem, cague nisso!” mas controlo-me. Seria redundante e de extremo mau gosto!!!

Entretanto atingimos os mil e quinhentos pés. O homem está desolado, envergonhadíssimo, mas acalmou!!

Falo-lhe: “Oh senhor Beltrano, tem ai um telemóvel?” Acena que sim. “E a sua mulher também?” “Simm!

Então vamos fazer o seguinte… O Senhor vai ligar-lhe e dizer-lhe que leve o carro para o fim da pista, que quando aterrarmos rolamos no avião até lá, certo?

O Senhor vira-se com dificuldade, (tem o cinto apertado) e lá extrai o telemóvel do bolso das calças. Mas o telemóvel está imundo!… inoperativo! E lá volta o “desculpe, desculpe….desculpe!

Berro “tenha calma, que até a Rainha de Inglaterra tem acidentes!”, e extraio o meu telemóvel dum bolso do meu fato de voo. E enojado q.b. lá lhe passo o telemóvel para as mãos sujíssimas…Sabendo que nunca mais o utilizarei.

Entretanto estou a dois pés. O Senhor está a ligar para a mulher e eu reduzo a potência do motor para ralenti…Nem podia ser de outra forma, o cockpit é aberto, seria impossível ouvir-se o telemóvel. O avião plana impecavelmente, e vai naturalmente perdendo altitude. Mas o senhor nem liga, está aos berros com a mulher…Esta não percebe que o “fim da pista” como expliquei é directamente oposto ao lugar onde se encontra. O senhor lá se consegue fazer explicar, entretanto já perdi 1000 mil pés.

E ainda berra: “ E não te esqueças de trazer aquelas toalhas de praia que estão na bagageira!

Desliga e agradece: “Obrigado, obrigado, obrigado”… Entretanto, ”full power” no motor, inicio volta e contravolta apertados para me por em linha com a pista. E observo que o senhor está agora todo inclinado para a frente, uma mão no próprio pára-brisas do avião numa inegável posição de corpo (body language) que denota “à-vontade”….

E não resisto. Puxo e largo o manche várias vezes, tiro e meto motor, só para observar a reacção…E esta não se faz esperar: “F#@!!#$## se, se não fosse este incidente, hê pá adorava voar mais um bocado consigo!…

Respondo: “ Pois, senhor Beltrano, o senhor está curado!” E em seguida, não sei bem o que me deu, talvez uma libertação de adrenalina, desato a rir. De boca aberta, “com as goelas” para fora, rio-me como um desalmado.

E o Senhor olha para mim, faz uns “trejeitos” na cara e põe-se ele também a rir de “bandeiras despregadas”.

Entretanto o cockpit fede, e os assentos já não estão brancos….parecemos dois loucos.

Na aterragem, o senhor ainda mete as mãos para fora, à semelhança de quem anda numa montanha russa….

Aterramos bem lá a frente para evitar “conversas”. E a mulher dele ao ver-nos ainda solta uns “aiisss” e uns “meu Deusss!!!”…

Limpa-se o avião rapidamente mas mal. Sigo para casa, quero tomar um banho! No dia seguinte, peço a uns colaboradores para irem lavar o avião. Voltam passados uns minutos, o avião já tinha sido escrupulosamente lavado.

Uns tempos depois recebo umas caixas de tinto “Bairrada”.

E finalmente, ao longo de vários anos, recebo postais do Canadá, da Austrália, e de tantos outros lugares. Dele e de outras pessoas que ajudei a vencer a fobia de voo.

Descrito este incidente, após tantos anos, confesso que tem “o seu quê” de cómico. Mas com frieza, é fácil concluir-se que poderia ter sido uma tragédia. Num problema de “fisiologia de voo” não controlável.

Mas não acabam aqui as minhas experiências!

Décadas depois, e já com o CS-UOC (outro anfíbio mais avançado) um dos meus passeios favoritos com a companhia da minha “piquena” é precisamente descolar para depois ir amarar na barragem de Montargil. Para lá fazer um piquenique. Requintado.

Fizemo-lo dezenas de vezes. No caminho para a pista, parava-mos no “El corte ingles” da Beloura, que na altura ainda tinha “pratos prontos”. Comprava-se umas perdizes de escabeche, uns queijos fortes, uns pimentos recheados, enfim, “comidas fortes”, e ainda meia garrafa de champagne, já refrigerado.

Depois, decolávamos e vinte minutos depois já tínhamos a barragem à vista. Como sempre, fazia um voo baixo de reconhecimento por cima da barragem, “cumprimentando” os barquinhos que lá se encontravam, com uma passagem rasa…”idiossincrasia” que me ficou dos tempos de Aveiro.

Nesse Domingo, não só “cumprimentei” os barquinhos de ski, como também um grupo de caiaques de plástico que ali se encontravam a remar. Seriam umas duas dezenas. A ver pelos gestos “não gostaram!!”….

Efectuados estes “preliminares” muito satisfatórios, lá amarei ao largo de uma prainha de areia fina e bem protegida de ventos e mirones. Que conhecia bem.

Como sempre, passamos ali umas horas bem agradáveis num “dolce farniente”.

Após uns bons banhos e petiscos, altura de nos irmos embora. Descolo, impecável, a superfície da água era um “espelho”. Subo à razão de 1.400pés/minuto, full power. Estou a mil e quinhentos pés e de repente, sinto “a mãe de todas as cólicas intestinais!”

Um reparo: Fisiologicamente, sempre fui “algo solto”. É de família!!! Arrisco dizer que conheço pelo menos setenta por cento de TODOS OS CAFÉS no Quartier Latin em Paris, onde vive a minha filha. As cozinhas pesadas não me caiem bem. Molhos e especiarias não são o meu “forte”. Mas adoro e exagero!!!

Mas, nunca na minha vida tinha tido tais cólicas, a voar!!…fico em pânico! Sei de antemão, porque me conheço bem, que só existe uma unica solução para cólicas. E não quero que tal aconteça a bordo. Lembro-me do “incidente de Aveiro”.

Aviso a minha namorada. Ela conhece-me bem…berra-me: “Quê?!?!…Code Orange? Code red?” Replico: ”ARMAGGEDONNNNN!”

Estou ainda por cima da barragem, quase na vertical do paredão. O “instinto” toma conta de mim. “Full power”, volta apertadíssima a 180º, depois manche todo para a frente e todo para a esquerda, pedais todos para a direita. Glissagem “severa”, a duzentos pés reduzo motor até as 3.200 RPM´S, endireito o avião e aterro a voar, um pouco “veloz”… O avião saltita como bola de ping-pong, …quero lá saber!!!

Aplico pedais a fundo a esquerda, o avião guina violentamente, a minha “piquena” quase cai sobre mim, mas o avião está agora apontado para a margem. É o que interessa!!!! Tenho alguns escassos segundos….O avião aproxima-se da margem, entretanto já eu soltei o cinto, já estou de pé para saltar….E salto de desespero. Mas o avião ainda está a mover-se, resultado, apanho com pancada nas costas, da asa esquerda posterior. Que me faz mergulhar, com o fato de voo, com a carteira, e sobretudo com o telemóvel. …quero lá saber!!

O impacto na água concede-me mais alguns segundos. Saio da água a correr, mas agora tenho outro problema. O fato de voo é só de uma peça, e está encharcado. Estou com dificuldades em tira-lo, na zona superior das costas… No último segundo, retiro-o, “assumo a posição”….. acocoro-me, berro para a minha garota “Nãooo olhes!”, E… finalmente, satisfaço a minha necessidade! Mesmo na margem!

Evitei o pior!! Respiro de alívio. Entretanto, ouço uns barulhos, espreito, ainda na “posição”, são os indivíduos dos caiaques. E ouço voz embirrente de garoto: “Ohhh mãe, está ali um homem a cagar!” …Quero lá saber! Baixo a cabeça!

E a Mãe: “Olha, é o “gajo” do avião….bem-feita! Deus é grande! É o que merece por nos assustar!”. Seguem-se grandes risotas. E os caiaques lá passam. Endireito-me. Estou “em paz”!!

Mas agora, chegam também os barquinhos de ski: “Então pá, que grande “picanço”. Pensávamos que se ia “espetar”. Afinal a emergência era outra, êh êh êh êh…

Faço um enorme esforço para “juntar os restos da minha “dignidade” e sai-me: “Sabem, até a Rainha de Inglaterra tem acidentes!”. Resposta?! Gargalhadas generalizadas.

Vou ao bolso do fato de voo, por reflexo, para extrair um cigarro. Estão “em papa”….Mas uma “alma caridosa” de um dos barquinhos apercebe-se e oferece-me um cigarro. Que aceito. Com gratidão.

E concluo esta narrativa. São evidentes os aspectos cómicos deste incidente, à semelhança do de Aveiro, décadas antes…Mas a análise fria do mesmo aponta inegavelmente que coloquei em risco a minha vida e mais grave, a vida da minha companheira….A volta brutal de 180º, a glissagem com o mínimo de controlo, a amaragem violenta, todos estes factores poderia ter “corrido mal”, com consequências porventura funestas. E em troco de quê? De sujar o avião? De me humilhar?

Por estas duas experiências e mais algumas outras menos “severas” é que eu pergunto a pessoas que não conheço, e que irão voar comigo, “se já foram a casa de banho”….

Quanto a mim, hoje em dia quando vou voar, tento seguir uma dieta simples sem grandes exageros, só bebo água, e certifico-me que estou bem intestinalmente!

Pedro Cameira Gomes. Julho 2016. Republicado em Fevereiro de 2019. Fotografia pixabay.com, Luis Malheiro.

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