O Prémio Icarus

Ícaro foi mesmo o primeiro aviador da história.

Simples…

Por um lado, tratou de ignorar ensinamentos básicos de aerodinâmica e performance que lhe foram transmitidos por alguém conhecedor e experiente.

Por outro, deixou-se levar por uma desmesurada ambição e por uma perniciosa jactância humanas para atingir um objectivo pouco ou nada claro, em circunstâncias de cujos perigos era sabedor e para os quais estava alertado.

Por fim, tal como “o hábito não faz o monge”, “o uniforme não faz o piloto” (nem um blusão e uns galões teriam safado o Sr. Comandante Ícaro…).

Mesmo tratando-se de um diletante acidente mitológico, Ícaro perpetua-se no Homem que aspira ser também pássaro.

Esse mesmo Homem naturalmente fascinado pelo voo mas que tem medo de voar. Que tem medo de tudo o que não é seu por natureza.

Daí precisar de heróis que o inspirem e ajudem a extirpar parte da sua mais profunda essência.

No entanto, creio que, tal como Homem e medo se fundem, heróis e acaso confundem-se.

Portanto, acredito igualmente que não há heróis que o quisessem ser.

E o tempo verbal é o usado: o passado; geralmente, heroísmo e tragédia andam de mão dada. O que escapa à generalidade tem o hábito magnânimo de manter-se num honroso anonimato que tende a ser tão maior quanto maior foi a bravura envolvida.

Qualquer heroísmo premeditado será, então, pura fraude condenável e vã vaidade. 

E de vaidosos está a história da aviação cheia.

Os antropólogos deveriam focar a sua atenção investigativa na Europa Central… Isto porque suspeito que a origem do Homem reside na Suíça…

Galantarias, estatutos, egos, …, podem proporcionar buracos gigantescos, perfeita e precisamente alinhados, nas fatias de queijo que, por sua vez, podem alimentar estatísticas dificilmente apagáveis da memória.

Se os heróis nos fazem desejar que certas partes da História não tivessem existido, os idiotas teimam em protagonizá-las. Além de que uns quantos dos segundos costumam criar as condições para que muitos dos primeiros sejam necessários. 

E para este último fenómeno vai concorrendo a lotaria da odisseia genética de que somos palco.

Por entre os seus medos, cada um de nós tem a sua parte de Cabrais, Cooks e Baumgartners.

Basta então que adenina, citosina, guanina e timina se digladiem numa roleta russa e que esta seja parada por um polegar na posição errada…

E lá poderemos ter mais um destemido Ícaro… Porventura a repetir, com carácter de urgência, um conhecido refrão da Bonnie Taylor (“I need a hero“…).

Claro que há excepções entre estes temerários. E urge fazer-lhes justiça e prestares-lhes homenagem: o propósito original de alguns deles é nobre, especialmente porque o avanço do saber e do conhecimento também se dá muito pela inovação e coragem de muitas das suas iniciativas.

No entanto, o arrojo destes espíritos verdadeiramente indómitos e aventureiros limita-se, demasiadas vezes, a ser relembrado na forma de enfadonhos nomes de teorias, alguns dos quais soam quase a epitáfio.

Sobram os muitos que procuram simplesmente a fama, desafiando, com regularidade, um único receio nesse percurso: serem descobertos por se apropriarem de feitos e factos de que não foram autores. (Ou empolarem, para empolgarem, puras invenções ou meras insignificâncias: “there I was…“)

E tudo isto porque só há pouco tempo me apercebi da miríade estapafúrdia de troféus, medalhas e menções atribuídos no mundo do éter, da aviação civil à militar, da geral à comercial, do pára-quedismo aos foguetões, dos fabricantes de helicópteros aos pilotos de aviões.

Há distinções que, de algum modo, acabam por ter o condão de estimular indivíduos, empresas, serviços e instituições na prossecução de objectivos maiores, como a melhoria contínua e a busca pela excelência nos domínios aeronáutico e aeroespacial: destacaria, por exemplo, o Collier Trophy e os Single European Sky Awards.

Outras há que fazem o justo e devido reconhecimento de actividades de voo meritórias, tais como o Mackay Trophy ou o Sikorsky Humanitarian Service Award (com o qual a Esquadra 751 da Força Aérea Portuguesa foi galardoada em 2015).

Quanto à maioria das restantes, só vi tentativas de caminho para a glória, o qual está pejado dos habituais desideratos ignominiosos e infames…

Desse modo, ainda esbocei que ia ficar chocado com tanto prémio mas nem sequer a vontade de o ficar se me assomou.

A razão é básica: Ícaro, aviador primaz, era vaidoso; por essa razão, tornou-se (se já o era, ficou ainda mais) um idiota; enquanto tal, tinha de ficar famoso na história, claro que pelas piores razões; merece um prémio.

Que os Ícaros passem a ser uma espécie em vias de extinção para que não precisem de heróis.

E que 2019 seja um hino à segurança aérea.

Pedro Neves Cruz. Dezembro 2018. Fotografias meramente representativas com apoio unsplash.com . Pintura Boris Vallejo.

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