O Menino que queria voar!

I

Pucariço ,aldeia na Beira Baixa.

É verão, o calor nos afasta do interior das casas e une o povo da aldeia num ritual mágico, repetido constantemente noite após noite, quase na mesma hora, sem que nenhum convite fosse feito.

Ouço o rufar das saias das senhoras chegando, e os bancos de madeira a beijar o chão de pedras. Sinto o cheiro do tabaco, o aroma das flores misturados com o pinhal e já então, meus olhos se acostumaram com a escuridão.

Não há em parte alguma do mundo, um céu igual a este! Tento contar as estrelas, mas só sei até dez… devem haver muitos dez de estrelas naquele céu. Parecem com os vagalumes que dançam em volta de nós, misturando-se ao lume dos tabacos.

Não consigo ver a face das pessoas apesar de tão cerca estarmos umas das outras; a noite é breu, uma ou outra janela das casas tem ao pé, uma lamparina com sua luz amarelada a tremular. Mas conheço as vozes… todos se conhecem tão bem no Pucariço.

Estou cansado de estar em pé, ajeito-me aqui e ali encostando-me ao ombro de minha mãe e sinto seu abraço meigo enlaçando-me a cintura. A conversa gira em torno do casamento de uma prima… até certa altura ouço com atenção, programam a festa. Viria o sanfoneiro da Vila a tocar no baile. Aborreço-me, falam de vestidos e fatos.

Saio sorrateiro em direcção ao riacho, no caminho sinto passar os morcegos… são muitos e fazem barulho com as asas á procura de alimento. Com certeza irão se deliciar com os frutos maduros.

Sento-me numa pedra ao pé do rio e divirto-me atirando pedrinhas para dentro dele. Deixo aquietar meus pensamentos à procura do meu sonho favorito. Queria poder voar como as aves… cruzar o céu do Pucariço para um lado e outro, sobrevoar os pinhais, dar um razante sobre o campo de girassóis, passear pertinho das nuvens, sentir o vento a passar na minha face. De montanha em montanha, tal qual cavalo alado, buscar o horizonte.

Quero voar como os pássaros!

Ouço meu pai a chamar, está na hora de dormir…

II

O dia ainda não chegou, mas sei que já está quase na hora de acordar, sinto o cheiro do mingau de milho vindo da cozinha, é a mãe que prepara o pequeno almoço. Debaixo do cobertor quentinho estico o pescoço e espio a janela embaçada pela fina camada de gelo que o frio depositou e sei que o dia será gelado.

O pai já acordou, ouço-o preparar-se para o trabalho, minha irmã já está a tagarelar com a mãe, é melhor eu levantar…

O chão de pedras da aldeia está coberto de poças de água congeladas, busco pedrinhas, encho meus bolsos com elas e vou pelo caminho divertindo-me em quebrar o gelo.

A escola fica longe, caminho depressa para não atrasar-me… faz muito frio e começa a chover… levo debaixo do braço o abrigo, uma capa feita de saca, desdobro-o de modo que me sirva de capuz á cabeça e me proteja da chuva.

Penso então no aconchego daquelas paredes de pedras tão largas, a lenha crepitando no fogão e aquecendo meu lar.

A mesa da cozinha com os enchidos que a mãe prepara tão bem, as hortaliças para a sopa e a broa de milho envolta em pano de linho que ela retira do baú na hora das refeições.

Não vejo a hora de terminar a aula e fazer meu caminho inverso de volta ao Pucariço.

Nilza Kruger Boieiro. In memoriam, 16 de Outubro de 2017. Fotografia Ihor Malytskyi, Tommy Lisbin, Myles Tan.

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