"Queremos realmente nós a segurança?!… "

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O dia de sábado estava nublado e algo frio o que adivinhava um evento sem aviões pois prudentemente os aviadores não iriam ao Flyin proposto para Viseu. Eu marcava assim a minha presença na Palestra que o GPIAA apoiado pela APAU iria realizar no Hangar GPIAA no Aeródromo Gonçalves Lobato, mais conhecido pelo Aeródromo Municipal de Viseu.

Muitas caras conhecidas vieram de carro dos mais variados lugares desde Lagos a Sul bem como Mirandela a Norte. Muitos amigos e companheiros. Estariam presentes cerca de 90 pessoas.

Ao entrar encontrei um hangar bem organizado e limpo, um pouco diferente do que estava à espera (esperava aeronaves acidentadas reconstruídas numa armação tal como vemos nos filmes!). As aeronaves estavam organizadas por lotes envolvidas e tapadas com lonas, em especial aquelas que recentemente chegaram a este hangar. Havia também algumas aeronaves acidentadas expostas de acidentes menos recentes e que tinham um pequeno descritivo sucinto do acidente. Eram proibidas fotos dentro do hangar GPIAA pelas razões óbvias.

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A palestra começou a horas com as boas vindas dadas pelo Director do GPIAA, Dr Álvaro Neves e do Dr Paulo Cunha Presidente da APAU.

Deixo-vos aqui os principais apontamentos que o Dr. Álvaro Neves, chegado recentemente de uma reunião com os vários GPIAA Europeus, deixou da sua apresentação.

Começou por agradecer a presença de todos aqueles que, face a distância e às condições meteorológicas tiveram a simpatia e interesse de estarem presentes.

Fez o enquadramento da Palestra e um reparo à ausência das vozes criticas e inflamadas dentro da comunidade ULM que nas redes sociais se erguem mas que estão sempre ausentes em fóruns de segurança, palestras ou em encontros construtivos para uma aviação ultraleve mais responsável e segura. Mostrou o desagrado por uma aviação que parece não quer, nem tem intenções de aprender com os erros e que não quer regras nem a responsabilidade em nome de uma liberdade de voar. “… as redes sociais não eram o local certo e responsável para discussões de segurança e atitudes aeronáuticas construtivas e em especial das acções da ANAC ou GPIAA” disse.

Era assim um discurso forte, incisivo e com muito desagrado pela atitude de alguns pilotos da aviação ultraleve como se têm expresso sobre as “… Instituições que investem recursos quer financeiros quer humanos na prevenção, investigação de acidentes e na divulgação de matérias de segurança vocacionados para os ULM. Exemplo disso é esta Palestra e a presença em vários outros fóruns organizados pela APAU de elementos da ANAC, GPIAA”. Vincou a inteira disponibilidade e abertura para nos fóruns certos a instituição auscultar e discutir assuntos e matérias relevantes como aliás o tem feito ultimamente em encontros com a direcção APAU no âmbito da segurança aérea desta comunidade

Faltou aqui, penso eu, alguma atenção ou referência a todos aqueles que se esforçam por cumprir com as regras estabelecidas.

Continuou a apresentação com dados estatísticos: cerca de 450 aeronaves de matricula CS-U existentes em Portugal, mais aproximadamente entre 50 a 100 de registo estrangeiros e cerca de 571 licenças de Piloto UL. Revelou que em relação à aviação ULM nos últimos anos 80% dos acidentes tem por causas o factor humano sendo que 24% teriam por base manobras não autorizadas pelos fabricantes consideradas acrobáticas, tecendo depois algumas considerações relativas a estes números: As expectativas do piloto/proprietário no que diz respeito à manutenção inapropriada feita pelo próprio ou fora dos parâmetros prescritos pelo construtor; ser uma aviação dos fabricantes de aeronaves de não quererem que as peças sejam certificadas e ou testadas pois assim são mais baratas e logo mais fáceis de vender quer prontas quer em kit sendo que, posteriormente, os pilotos as irão modificar com equipamentos e peças que chegam a ser não recomendadas e inapropriadas por serem de automóveis.

Deixou ainda a ideia que a aviação ULM é rica em aeronaves de grande performance em muitos casos melhores até que as da Aviação Geral mas a não certificação de alguns equipamentos básicos fazem com que não haja ponte de equilíbrio entre a segurança e o mais barato.

Desafiou e defendeu depois que os fabricantes deveriam certificar um nível mínimo de equipamentos das suas aeronaves incrementando segurança e confiança ao sistema e deu exemplos: o Sistema eléctrico; padronização do layout dos instrumentos; padronizar e certificar os instrumentos básicos; adição dos paraquedas de emergência e ter atenção não só à ergonomia como à colocação conveniente à operação dos comandos bem como à localização no painel de instrumentos evitando assim confusões e má ou inadvertida operação.

Focou finalmente os factores humanos, componente principal da airmanship em que os pilotos devem estar melhores preparados para as falhas motor, conhecerem melhor a aeronave e leitura dos manuais. Referiu também a capacidade técnica e limites fisiológicos de cada um como variante da experiência e da doutrina ensinada.

Com a sua presença na reunião dos GPIAA Europeus alertou para a intenção dos Países Europeus retirar da sua alçada os Ultraleves tal como estão agora, deixando assim lugar à comunidade tomar medidas que entendam para a investigação e lessons to learn dos acidentes.

Terminou com uma constatação que “… a aviação ULM em nome da liberdade de voar não comunga nem quer comungar das preocupações quer do GPIAA quer na ANAC.”

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O Presidente da APAU Paulo Cunha tomou depois a palavra dizendo que a APAU estava de boa saúde enumerando o trabalho a direcção tem desenvolvido e referiu os protocolos de colaboração com as várias entidades e aeroclubes relativamente à segurança aérea e prevenção mas também ajuda na investigação de acidente.

“Nós não precisamos da ANAC e GPIAA para nos dizer o que fazer” pois temos que resolver os nossos problemas no seio da nossa família aeronáutica sublinhando que a comunidade ultraleve deve ser coesa e mitigar os seus problemas. Continuou com um discurso sobre as várias questões e variantes dos acidentes e sobre o elemento mais influente, o elemento humano afigurando-se o mais flexível, adaptável e valioso e que cada um de nós deveria configurar.

O discurso pelo Presidente Paulo Cunha foi depois virado para a esperança e vontade de mudança focado no factor humano fazendo várias citações e referindo uma ferramenta que há muito se utiliza na Boeing chamada de Critical Incidente Stress Debriefing ou CISD. De referir que como Controlador aéreo temos também nós uma ferramenta similar chamada CISM e que funciona na vertente de factor humano e que um dia irei aqui explanar mais detalhadamente.

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Terminados os discursos o GPIAA entregou um livro/relatório de 10 anos de actividade no GPIAA referente à comunidade ultraleve.

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Seguiu-se um almoço farto e simpático oferecido pela organização da Palestra onde mais uma vez se viveu o espírito de confraternização e amizade desta comunidade. O Vice-Presidente da Câmara Municipal de Viseu fez durante o almoço, um pequeno apontamento de boas vindas à cidade e esta vertente aeronáutica fortemente apoiada ultimamente.

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Foi uma manhã intensa de conteúdo e amizade.

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José Rocha

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“Aviação Ultraleve em Portugal – 2008/2015 – Análise e Advertências”

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