“The Dance” – arte coreografada no céu… – Parte I

Aerial firefighting is an art form, choreographed with many physical variables and limitations. It was during these formative years that we all learned “The Dance”. (Tom Janney)

O fogo tem uma relação muito estreita com o Homem e teve um papel directo e determinante na sua evolução.

No entanto, a relação do Homem com o fogo tem conhecido tristes capítulos de uma desnecessária involução.

Aviation is to serve only for reconnaissance and only in this direction should it be used.” (Marshal Josef Pilsudski, 1929)

As tentativas de utilizar meios mais pesados que o ar para detectar e combater fogos florestais remonta, pelo menos, às décadas de 1910 e 1920.

A observação de áreas florestais remotas era feita inicialmente a partir de dirigíveis.

Quanto à extinção dos fogos foi proposto o bombardeamento dos mesmos com sacos de papel de cera ou com barris de madeira cheios com água, lançados a partir de aeronaves.

Mais tarde, em 1944, o piloto Carl Crossley colocou a seguinte questão: se os aviões militares podiam ser usados para lançar grandes quantidades de bombas sobre as forças inimigas e sobre cidades devastadas pela guerra na Europa, então podiam ser usados aviões civis para largar cargas de água sobre fogos nas florestas. Estava lançada a semente do “water bombing“.

Well, we did not build those bombers to carry crushed rose petals.” (Gen. Thomas S. Power, USAF)

 Em 1950 tentou-se o uso de “bombas de água”. A ideia consistia num conjunto de 8 sacos, cada um cheio com cerca de 20 litros de água, lançados individualmente através de um tapete rolante inclinado que desembocava numa abertura lateral na fuselagem de um DHC-2 Beaver. No entanto, este método foi rapidamente abandonado dada a sua falta de eficácia: a área coberta era muito pequena e a queda dos sacos provocava a dispersão do fogo e constituía um perigo para pessoas e bens no terreno.

Foi então em meados da década de 1950 que o combate aéreo aos fogos florestais (“aerial firefighting“) tornou-se uma realidade: uma série de experiências bem sucedidas com sistemas engenhosos e funcionais de armazenamento e descarga de água demonstrou que as aeronaves, ainda que com muitas limitações na altura, eram um recurso valioso para as equipas no terreno.

Os primeiros aviões a ser utilizados eram excedentes da Segunda Guerra Mundial e da Guerra da Coreia e tinham funções originais completamente distintas – treino (Stearman e N3N), bombardeiros-torpedeiros (TBF-1/TBM), patrulha, guerra anti-submarina e busca-e-salvamento (Catalina), bombardeiros de patrulha (Privateer).

Tendo sido concebidos para aguentar os rigores do combate militar e, em alguns casos, dispondo de capacidades de carga e autonomia significativas, estes aviões adaptaram-se rapidamente a esta segunda vida para travar uma nova guerra.

Seguiu-se a adaptação de outros modelos de avião: o elegante F7F Tigercat, o icónico B-25 Mitchell (Doolitle Raid), o curioso AJ-1 Savage, o versátil A-26 Invader, o robusto B-24 Liberator, o consagrado B-17 Flying Fortress e o gigantesco Martin JRM-3 Mars.

Posteriormente, e à medida que também se tornaram excedentários, foram igualmente adaptados aviões como o C-119 Flying Boxcar, o S-2 Tracker (que deu origem S-2T/AT e ao Conair Firecat e Turbofirecat) e o nosso conhecido P-2 Neptune.

Cada geração de aviões acrescentava características e capacidades e introduzia complexidade e performance superiores: na década de 1980 assistiu-se à adaptação de aviões equipados com motores turbina, tal como os igualmente familiares C-130 Hercules (equipado com o MAFFS – Modular Airborne Fire Fighting System) e P-3 Orion.

Mas nem só aviões militares foram adaptados para o combate aos fogos florestais, havendo muitos aviões concebidos originalmente para utilização civil que foram e continuam a ser modificados e utilizados para o mesmo fim: KR-34, Norseman, Beaver, Otter, Twin Otter, DC-4, DC-6 e DC-7, B737-300 e B747-100/200/400, MD-87 e DC-10, CV-340/440/580, Dash 8 Q400-MR e BAe 146-200 / Avro RJ85.

The bomber was not a direct product of circumstances; it was the result of a gradual realization of the cardinal value of aircraft.” (Air Marshal E.J. Kingston-McCloughry)

O surgimento de aeronaves dedicadas ao combate aos fogos florestais destacou-se essencialmente nos Estados Unidos da América (aviões terrestres) e no Canadá (hidroaviões, anfíbios e scoopers). Há autores que defendem que a corrida a estas aeronaves, disputada entre estes dois países, foi quase tão excitante quanto a “corrida ao espaço” entre norte-americanos e soviéticos.

No entanto, outros países criaram e desenvolveram aeronaves assinaláveis na mesma base e com o mesmo propósito: na ex-União Soviética (Rússia e Ucrânia), Be-12P e Be-200, Il-76P, An-2 e An-32P; no Japão, ShinMaywa US-2; na China, Harbin SH-5/PS-5.

Por outro lado, a concepção de aviões dedicados exclusivamente ao combate aos fogos florestais passou a estar, em alguns casos, intimamente associada à criação de aviões agrícolas, de que são exemplos aviões agro-florestais como o Dromader e o Air Tractor AT-802F.

(No caso do Air Tractor AT-802, o caminho foi o inverso: este modelo continua a ser modificado e adaptado para combate militar, nomeadamente na forma do AT-802U e do AT-802L/OA-8 Longsword).

Há ainda casos em que os aviões foram projectados de raiz para o combate aos fogos florestais: Air Tractor AT-802F Fireboss e Canadair/Bombardier CL-215/CL-215T Scooper e CL-415 Superscooper.

Desde os hidroaviões aos aviões terrestres, passando pelos modelos anfíbios, equipados com motores radiais ou com turbinas, os aviões utilizados no combate aos fogos florestais são, desde sempre, alvo de grande evolução nos mais diversos aspectos e de melhoramento contínuo a vários níveis.

Boa parte dessa evolução passou pelos sistemas de armazenamento e descarga dos agentes extintores/retardantes: hoppers (tanques) internos ou externos, localizados nos montantes das asas, nos flutuadores ou na fuselagem, fixos ou rotativos, com capacidades entre os 160 e os 74200 litros, reabastecidos em terra (com recurso a motobombas) ou via scooping (recolha de água, através de tomadas retrácteis ou móveis/rotativas localizadas no casco ou nos flutuadores, enquanto o avião desliza na água), e equipados com gates/portas que permitem uma descarga única ou gradual ou então uma descarga múltipla de diferentes quantidades de água, caldas ou espumíferos.

Quanto a este último aspecto, a melhor solução para a extinção e/ou para o retardamento dos fogos florestais a partir do ar ainda não foi encontrada.

Apesar dos muitos progressos também registados nesta área, ainda não foi encontrado um compromisso amplamente consensual entre a utilização exclusiva da água, de produtos químicos e/ou de uma combinação de ambos.

Pedro Cruz. 04 de Agosto de 2018. Fotos por Raquel Raclette, Dawn Armfield, Jason WongHenry BeMatt HowardNeven KrcmarekAs fotos das aeronaves referenciadas no artigo foram extraídas na sua totalidade da Wikipedia, onde poderão ser vistos os seus autores e consultadas as suas características.

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