Manifesto anti-aviões ligeiros… uma ode às avionetas.

I want to buy an airplane… but my wife Cess-nah“: manifesto anti-aviões ligeiros… uma ode às avionetas…

Fazendo um exercício de análise de composição de palavras por aglutinação, encontra-se rigor e justiça em “avionetas”: netas da aviação…

Isto na perspectiva das imensas gerações de aviões ligeiros que têm marcado a história da aviação dita moderna.

Clyde Cessna, o “Zé das Avionetes” (aportuguesação de “avionette“), estaria longe de imaginar que o sucesso por ele iniciado fosse tão frequentemente vilipendiado por jocosidades que levantam voo (!!!) com uma ligeireza que, por ser tão frequente, vence facilmente a força da gravidade da ignorância…

Falar da quase centenária Cessna revestir-se-ia de uma exaustividade fastidiosa, tão longa e assinalável é a lista de obras-primas voadoras concebidas em Wichita.

Entre um planador e um helicóptero, este construtor aeronáutico de referência produziu alguns modelos de aviões que dividem o seu sucesso entre a iconicidade e o início da concretização de muitos sonhos.

A fiabilidade e a durabilidade das mais diversas variantes do Cessna 150 e do Cessna 152 imortalizaram-se nos aeroclubes e nas escolas de pilotos.

O mesmo acontece com o Cessna 172, o modelo de avião mais produzido de sempre em todo o mundo e recordista para o voo mais longo (em termos de tempo) alguma vez realizado. Inclui-se aqui o T-41 Mescalero (“Chickenhawk“), versão militar do Cessna 172 utilizada por várias Forças Aéreas para treino dos seus pilotos.

A propósito de aviões de treino militares, chamaram-lhe “Tweet / Tweety Bird” mas os motores do “Hummer“, que berravam como uma “Screaming Mimi” e serviam de “Convertor” (“convertiam combustível e ar em fumo e barulho”), permitiram que o “The World’s Largest Dog Whistle / 6000 Pounds Dog Whistle” fosse um dos principais aviões de treino da Força Aérea Norte-Americana durante mais de 50 anos…

Falo do T-37, que brilhou igualmente na Força Aérea Portuguesa (FAP) com os saudosos Asas de Portugal.

Entre outros (Cessna 185, Cessna 310 e Cessna 401), outro Cessna destacou-se ao serviço da FAP: o FTB-337G, o famoso e inconfundível “puxa-empurra”.

A enumeração dos vários e distintos modelos da Cessna só reforçaria a reputação sólida e incontestável da respectiva versatilidade: há também Cessnas a transportar passageiros e/ou carga, a levar ajuda médica e humanitária a alguns dos mais recônditos e problemáticos lugares do mundo, a trabalhar na agricultura, a rebocar planadores, a largar pára-quedistas (para deleite dos próprios e para delícia dos espectadores dos festivais aéreos), a fazer fotografia e levantamentos aéreos para os mais diversos fins, a aterrar e a descolar em algumas das paisagens mais deslumbrantemente inóspitas do planeta e visitadas pelo bush flying.

A propósito, recomendo a visualização desta reportagem:

CLIQUE AQUI: https://www.youtube.com/watch?v=5FeCKfwJ9HA

Acresce que dos estiradores e das máquinas da Cessna Aircraft Corporation saíram tanto o humilde Cessna 150/152 (o avião bilugar civil mais produzido de sempre) como o eclético Cessna Citation X+, o mais rápido jacto executivo com alcance transcontinental.

Creio que é, portanto, completamente injusto e incorrecto tentar reduzir os aviões ligeiros ao quase desprezo do estatuto associado à conotação de “avioneta”.

E lá porque se costuma confundir Cessna com “avionete”, realce-se que sempre houve e haverá muitos outros “pequenos aviões com motores de fraca potência” a protagonizarem páginas de ouro no imaginário da história da aviação…

William Piper deixou toda uma descendência iniciada com uma cria indelével que resistiu a 80 anos de história, inventando-se como Cub e reinventando-se como Special, Super, Grasshopper e Carbon, sempre na base da genialidade funcional do que é simples.

A Lockheed, conhecida e reconhecida pelo carácter único e exclusivo dos seus produtos (Electra, Constellation, TriStar, Shooting Star, Starfighter, Night Hawk, Hercules, Galaxy, Neptune, Orion, Viking, Blackbird), concebeu aquele que é considerado por alguns o primeiro avião furtivo (stealth): o YO-3 “Quiet Star“, uma “avioneta” com características e capacidades extraordinárias.

Por alguma razão, a prolificidade e a polivalência da aviação geral fazem dela um banco de ensaios privilegiado para a tecnologia de ponta que é aplicada, por exemplo, nos grandes e glamorosos airliners.

Por outro lado, de acordo com dados de 2017 publicados pela AOPA, os aviões ligeiros da aviação geral são um peso-pesado da economia norte-americana.

As coordenadas da aviação estão marcadas por nomes como os das “Big Three” (Cessna, Piper e Beechcraft)… Talvez por isso, sem qualquer falsa modéstia, tenhamos os Cessna Citation Hemisphere, Latitude e Longitude.

Sobram os argumentos para refutar e rebater a importância menor atribuída à aviação geral. Nomeadamente quando incluímos a fabulosa miríade de maravilhas tecnológicas encontrada nas aeronaves ultraleves.

Um desses argumentos entra em breve na final curta: o Verão…

E dia de praia só o é com pregões…

Os dos incansáveis e louváveis vendedores das bolas de Berlim, da língua da sogra ou da batatinha frita e… os das festas nas discotecas e as declarações de amor que esvoaçam atrás de uma “avioneta”!

 

Pedro Cruz. 8 de Abril de 2018. Fotografia Wikimedia.

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2 comments

  • H. Páscoa

    Para acabar de vez com as “avionetas”…
    Excelente artigo, muito bem escrito por alguém que com toda a certeza conhece a fundo o mundo das avionetas, perdão, dos aviões.
    Parabéns e continuem a fazer a diferença!!

  • Marta

    Um artigo muito bonito e escrito por um piloto grande …que também é um grande piloto. Um bjinho grande para ti!

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