Sete virtudes capitais

Por altura das Festas, a tradição de algumas partes do país manda que se coma a “roupa velha” ou o “farrapo velho”…

Por outro lado, há quem diga que “velhos são os trapos”…

Mesmo havendo “pano para mangas” relativamente aos velhos assuntos que se seguem, proponho uma “manta de retalhos”, feita com “trapos de roupa velha” e por alguém que, enquanto pessoa e enquanto utilizador do éter, deseja que este (e todos os próximos) seja um verdadeiro Ano Novo, nomeadamente em termos de segurança aérea.

Within all of us is a varying amount of space lint and star dust, the residue from our creation. Most are too busy to notice it, and it is stronger in some than others. It is strongest in those of us who fly and is responsible for an unconscious, subtle desire to slip into some wings and try for the elusive boundaries of our origin.

A propósito, Carl Sagan disse que “We are made of starstuff.

Sim: somos tão somente e apenas uns simples e presunçosos aglomerados de hidrogénio, oxigénio, azoto, carbono, …

No entanto, tal como acontece com um mesmo conjunto de blocos de construção de brincar, tanto se pode construir o palácio de uma boneca que dizem anatomicamente inviável como a casa de uma família com nome de pastilhas elásticas.

Estaremos, portanto, sempre entregues à magia da química e ao sortilégio da imaginação.

É também por isto que somos “todos diferentes, todos iguais”.

Nasce aqui a inquietação e a inquietude de saber se o azul do céu é igual para todos os que olham para ele…

A insignificância da minha efemeridade e o alcance limitado dos meus sentidos permitem-me percepcionar muito pouco do tanto que me rodeia.

Por que não socorrer-me então da percepção e da sensibilidade dos outros para enriquecer e aumentar a abrangência da panorâmica que tenho da vida e do mundo?

Isto faz-me concordar apenas em parte com algo que li algures: “só lê muito quem não tem a capacidade de pensar por si próprio”…

A outra parte faz-me gostar de ver, ouvir e ler como é que os outros vivem, sentem e experienciam esta nossa existência.

Mesmo que “tudo o que ouvimos é uma opinião, não um facto; tudo o que vemos é uma perspectiva, não a verdade”.

Modéstia

Man must rise above the Earth – to the top of the atmosphere and beyond – for only thus he fully understand the world in which he lives.

Quem voa é um privilegiado: “vê mais longe a gaivota que voa mais alto”.

Estejamos sempre à altura da responsabilidade desse privilégio.

Responsabilidade para com o próprio e para com os outros (os que voem connosco e os anónimos alheios que estão cá em baixo).

Honestidade

“Se os que andam no mar são marujos por que é que os que andam no ar não são araújos?”

Para quem não tem receio de o fazer, voar deveria ser obrigatório por lei…

Dessa forma, o “there I was” passaria a ser apenas uma forma questionavelmente divertida de os Majores Alvegas com um APU no c… relatarem algumas das suas desventuras…

“Voar, mata…” Especialmente quando misturado com vaidade e/ou com “capitância”…

Integridade (de carácter… e estrutural…)

Flying is the second greatest thrill known to man… Landing is the first…

O Zé Piloto que nunca prevaricou no ar, dê um passo em frente… E com uma pedra na mão…

Pois… Parece que continuamos todos com os calços metidos, abrigados em modo stealth debaixo das nossas canopies de Plexiglass

Todos cometemos erros: é a Natureza a funcionar.

Já o confessar deveria ser um acto naturalmente maior e fundamental… Enferma de ser opcional… Tal como, por exemplo, informar que poderemos ter excedido um limite estrutural…

Então lembremo-nos sempre que alguém pode partir os amortecedores naturais porque nos esquecemos (…) de dizer que, num voo anterior, “puxámos” um bocadinho de mais pelo avião…

É que no dia a seguir poderemos ser nós a ficar com espaço na boca para alugar porque alguém também se esqueceu (…) de avisar que “abusou” um bocadinho da astronave…

Mantenhamo-nos intactos. Assim como ao gosto que nos une – voar – e à possibilidade de o fazer sempre em segurança.

Disciplina

When a flight is proceeding incredibly well, something was forgotten.

A aviação foi criada pelo Homem e, também por essa razão, está sujeita às vicissitudes da respectiva essência.

Contudo, o essencial da aviação foi inventado há muito. E manter-se-á inalterado. Ou os pássaros teriam que se reinventar.

Entretanto houve um Murphy que nos mostrou, com as suas leis, que o génio humano é pródigo também no inventar. Então quando aplicadas aos “avoadores”…

Mesmo assim, ainda há demasiado quem a não perceber que as invenções em aviação costumam ter um preço elevado… Por vezes, vezes a mais, demasiado…

Por algum motivo, os construtores de aeronaves investem recursos, entre outros, na elaboração de checklists e de procedimentos.

Assim, compete aos araújos terem o mais básico senso de aderir ao que está escrito: estaremos sempre salvaguardados pelo safe and legal side da história.

Equilíbrio, serenidade e ponderação

There are old pilots and there are bold pilots. But there are no old bold pilots.

“Nem tanto ao ar nem tanto à terra”.

O tempo e as oportunidades para usufruir em pleno o prazer do voar são como o céu: infinitos.

Basta sermos coerentes, consistentes e consequentes.

Experiência – Julgamento – Conhecimento

Experience is that marvelous thing that enables you to recognize a mistake when you make it again.

Good judgement comes from experience and a lot of that comes from bad judgement.

Experience is a hard teacher: first comes the test, then the lesson.

“Todos os cogumelos são comestíveis: alguns só uma vez…”

O saber de experiência feito tem cada vez menos espaço na aviação.

“O problema da informação é estar escondida nos livros”.

A ignorância é uma bênção cada vez mais excomungada pela vertigem desta era estapafúrdia da informação…

Estudar, actualizar, preparar, rever, treinar, praticar, …, são verbos que estarão sempre na moda em aviação.

E ter dúvidas é sinal de querer saber, enquanto que perguntar é sintoma de interesse.

Humildade

You haven’t seen a tree until you’ve seen its shadow from the sky.

Deveremos fazer sempre um esforço consciente para determinar e conhecer os nossos limites.

Deveremos reconhecer e admitir os nossos erros.

Deveremos trabalhar constantemente para minorar uns e mitigar outros.

Um Excelente 2018 para todos!

Pedro Cruz. 10 de Janeiro de 2018. Fotografia por Niilo Isotalo, calvin kan, Alex Gorham, Ethan Weil, Ray Hennessy, Chris Leipelt, Erik-Jan Leusink

Nota Cavok.pt – O artigo publicado é da responsabilidade do seu autor e não compromete ou vincula o CAVOK.pt aos conteúdos, ideias ou intenções. O autor do artigo não recebe, nem irá receber qualquer compensação directa ou indirecta, referente à opinião expressa. O CAVOK.pt não interfere ou analisa o conteúdo pelas ideias, opiniões ou intenções mas apenas ajusta a formatação gráfica do mesmo.

One comment

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *