Força Aérea dos Agricultores: das abelhas à linha aérea…

O “Zé-Piloto” tem umas primas “avoadoras” mal-amadas: as abelhas!

Conhecidas e reconhecidas, entre outras, pela sua extraordinária capacidade de orientação/navegação, as abelhas desempenham um papel determinante nos processos de polinização natural de algumas culturas essenciais para o Homem.

Em relação a isso, está a assistir-se a um preocupante e misterioso desaparecimento das abelhas, o qual é atribuído pela comunidade científica ao fenómeno da Colony Collapse Disorder.

Enquanto se tenta perceber por que razões as abelhas estão a desaparecer e se tenta chegar a um consenso quanto a essa questão alarmante, o Homem, aguçando o engenho por força da necessidade, continua a utilizar a força aérea que criou para o auxiliar numa das suas actividades fundamentais: a agricultura… nomeadamente para combater parentes voadores non gratos

Assim, as raízes da aviação agrícola remontam ao início do século passado.

O primeiro registo da designada “aplicação aérea” (aerial application) datará de 1906 e estará relacionada com John Chaytor, que terá utilizado um balão de ar quente para lançar sementes a partir do ar sobre um terreno pantanoso na Nova Zelândia.

Este método de sementeira a partir do ar (aerial seed sowing) ainda é utilizado actualmente, principalmente para o cultivo do arroz.

Mais tarde, os cientistas da Ohio Experimental Agricultural Station juntaram-se ao US Army Signals Corps para criar um avião capaz de aplicar insecticidas em voo.

Foi então que, no Verão de 1921, um exemplar modificado do Curtiss JN6 “Super Jenny” (versão do Curtiss JN4 “Jenny“, biplano bilugar monomotor de treino, muito utilizado na Primeira Guerra Mundial e que constituiu a base do barnstorming) foi utilizado para um primeiro teste: a aplicação de arseniato de chumbo em pomares infestados por lagartas.

Aos comandos, o Tenente John Macready, piloto de testes e pioneiro da aviação, único vencedor do Mackay Trophy por três vezes consecutivas, devidas a outros tantos recordes por ele estabelecidos.

No lugar de trás, um operador actuava manualmente, através de uma manivela, o sistema de distribuição acoplado ao depósito (hopper) instalado entre fuselagem e a asa inferior do avião e no qual era transportado o insecticida.

Este primeiro teste foi um grande sucesso dado que menos de 1% dos insectos que infestavam a área tratada sobreviveram.

Pouco tempo mais tarde, Bert Raymond Coad e Collett Everman Woolman, funcionários do laboratório de campo do U.S. Department of Agriculture, concluíram que a solução mais efectiva para tratar as plantações de algodão infestadas por escaravelhos em Tallulah, no Louisiana, passava pela aplicação aérea de insecticida em pó: surge daqui a designação “crop dusting“.

Desse modo, e pela iniciativa destes seus dois fundadores, as primeiras operações comerciais de crop dusting começaram em 1924, através da primeira companhia aérea agrícola, a Huff Daland Dusters.

Em 1925, a empresa operava a maior frota privada do mundo: 18 aviões Huff-Daland Duster.

Tendo começado a servir a área do Delta do Mississipi em 1928, a empresa ganhou daí uma nova designação: Delta Air Service.

Em 1945, a empresa passa a ter um novo nome comercial oficial: Delta Air Lines, Inc. Company… Essa mesmo, a Delta Airlines, uma das empresas major de linha aérea dos Estados Unidos da América e uma das maiores do mundo!  

Enquanto a evolução dos sistemas de irrigação e a mecanização sustentaram a prosperidade da agricultura moderna, a aviação agrícola, que se foi disseminando lentamente por várias partes do mundo, tornou-se um elemento vital desta.

Os processos agrícolas manuais ou que utilizavam animais consumiam muito tempo, eram pouco eficientes e cobriam áreas muito pequenas por dia.

Numa fase em que a necessidade de produtos agrícolas tem crescido quase exponencialmente, a optimização de recursos e a maximização dos resultados são cruciais.

Dessa forma, o controlo e/ou a eliminação de insectos, doenças e ervas-daninhas (que podem danificar severamente ou destruir por completo colheitas inteiras) são cada vez mais determinantes e o tempo um factor cada vez mais crítico.

Apesar da grande polémica em torno da aplicação aérea de alguns produtos químicos utilizados na agricultura, a aviação agrícola reúne uma série de vantagens que permitem rentabilizar as culturas.

Nesse sentido, além de questões práticas e técnicas de relevo, destacar-se-á o elemento económico: a utilização de maquinaria agrícola pesada pode reduzir a rentabilidade de uma colheita até 5%, prejuízo que, por sua vez, pode exceder largamente o valor pago pela utilização de uma aeronave para aplicação aérea.

Quanto a aeronaves, o início da aviação agrícola passou essencialmente por aviões militares excedentários: o evoluir da tecnologia deu lugar a aviões concebidos de origem como aviões agrícolas.

Os vetustos biplanos equipados com motores radiais deram lugar a monoplanos equipados com motores turboprop: com um custo de aquisição que pode exceder um milhão de dólares, conseguem carregar até 3000 litros de químicos líquidos e utilizam moderníssimos equipamentos GPS para uma aplicação muito precisa da carga transportada.

deHavilland Tiger Moth, Stearman Model 75, Auster Agricola, Grumman Ag Cat, Cessna 188 AG series, Aero Boero 260AG, PAC Cresco e PAC Fletcher, IMCO CAllAir A-9, PZL Kruk, PZL Dromader e PZL Belphegor, Hongdu/Nanchang N-5, Piper Pawnee e Piper Pawnee Brave, Zlin Cmelak, Ayres Thrush e EMBRAER Ipanema/Ipanemão são alguns exemplos.

Embora os aviões dominem largamente as áreas da pulverização, da fumigação, da fertilização e da sementeira, estas formas de aplicação aérea não são feitas exclusivamente por eles: além dos aviões, helicópteros e, num futuro já aí à porta, drones (Yamaha R-MAX) são também utilizados no tratamento e protecção das florestas, na alimentação de peixe e no controlo de neve acumulada em vertentes montanhosas e de insectos que ameaçam a saúde pública.

Nesta última área destacaria José Carvalho, piloto português de helicópteros que, em 2003, foi agraciado com o muito prestigiante Igor I. Sikorsky Award for Humanitarian Service, atribuído pela Helicopter Association International.

Esta distinção deveu-se ao facto de, à data, José Carvalho ter passado os últimos 20 anos da sua carreira como piloto a trabalhar ao serviço do WHO-ONCHO – World Health Organization‘s Onchocerciasis Control Program, especialmente no Togo.

Este programa visa a erradicação da oncocercose, doença parasítica vulgarmente conhecida por “cegueira dos rios” e que afecta milhões de pessoas, especialmente na África Ocidental.

Para tal é feita pulverização aérea de químicos sobre os locais de reprodução das moscas transmissoras desta doença, tipicamente localizados em bancos de cursos de água rápidos.

A dedicação deste português e da sua equipa fez com que a oncocercose desaparecesse virtualmente das áreas onde trabalhou!

Quanto aos pilotos agrícolas, tidos por alguns como temerários daredevils, estamos a falar de profissionais altamente qualificados.

Uma excelente capacidade de concentração é requisito obrigatório.

A capacidade de gestão de várias tarefas no cockpit também: manter a velocidade, subir, descer, nivelar, acompanhar as formas do terreno mantendo uma altura constante, ler os instrumentos, ligar e desligar o sistema de aplicação, estar atento ao vento e aos obstáculos…

O domínio das técnicas de pilotagem é, assim, fulcral porque tudo isto acontece a velocidades que variam entre os 100 e os 120 nós e com as rodas do trem principal por vezes a menos de um metro do chão…

Para complicar ainda mais, há, por exemplo, locais na Austrália em que as aplicações são feitas à noite para evitar as temperaturas muito elevadas do período diurno…

Por fim, junte-se-lhe uma grande formação teórica específica em termos de agricultura, meteorologia e química e um intenso treino de voo para se alcançar a proficiência técnica muito elevada necessária para se trabalhar como piloto agrícola.

Apesar de ser uma área da aviação com menor visibilidade, a aviação agrícola assume um carácter prático e económico muito relevante no mundo actual, especialmente pelo papel que desempenha em culturas muito importantes como o algodão, o milho, o trigo, a palma, a banana e o arroz.

Talvez por essa razão, um dos recentes sucessos da Disney tem por protagonista o famoso Dusty Crophopper!

Pedro Cruz. 4 de Novembro de 2017. Fotos por NAAA , Greg L. Davis, Gaetano Cessatie e  Aleksandr Eremin.

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3 comments

  • Tó Veladas

    Muito interessante o conteúdo. Grato pelo mesmo.

  • Antonio Pereira

    Excelente!

  • Carlos Miguel Costa

    Sábado de manhã.. .
    “Anda Amor… vamos tomar um café.. .”
    Assim como quem não quer a coisa o “artista” saca do smartphone e, de repente, fica vidrado.
    A esposa passa uns belos 10 minutos a ouvir: ‘humm humm… pois…. tens toda a razão!
    O artista lá acorda, finalmente, quando ouve um muito aborrecido:
    – Alô Marte, daqui é a Terra! CARLOS! Não ouviste nada do que eu disse. Pois não?
    – errrrr… hã… não?!..
    – Outra vez nas nuvens né? Vê la se acordas!
    ….
    Acabou agora mesmo de acontecer…
    Excelente artigo… A minha esposa que me desculpe…

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