“O seguro morreu de velho”…

Algumas coisas que devem fazer antes de voar para um aeroporto desconhecido

Lembram-se daquela velha máxima popular, “o seguro morreu de velho”? E desta? “Cautelas e caldos de galinha nunca fizeram mal a ninguém!”.

Mas que maneira mais “suis generis” de começar um artigo! Adiante! (…)

Recentemente estive envolvido numa aventura aeronáutica absolutamente fantástica.

Viveram-se momentos inesquecíveis e tive oportunidade de privar com Aviadores que, à falta de melhor adjectivo, podemos considerar TOP – hoje em dia qualquer adjectivo conjugado no superlativo pode ser substituído pela palavra TOP.

Como aqui o rapaz ainda é muito “maçarico” nestas coisas do ar, esta aventura serviu, sobretudo, para aprender com quem sabe… e bem! E muito!

Já dizia o tal anúncio: “Quem sabe, sabe!…”

Assim, num planeamento de voo para uma semana, que levou quase um ano a ser delineado ao ínfimo pormenor, visto e revisto um sem número de vezes, conseguimos cumprir na íntegra… o primeiro dia….

A partir daí, o (re)planeamento teve de ser feito dia a dia… ao sabor do que o tempo (weather) permitia e aquilo a que gosto de chamar “fuel availability”. Aproveitando, sempre que possível, o que já estava feito e ajustando o que faltava fazer…

Entendo que experiências destas são maiores do que nós próprios e o seu alcance só pode ser avaliado na medida em que conseguimos partilhá-las.

Atualmente, todos nós usamos computador. Mesmo que não queiramos ou pensemos que os computadores “só vieram resolver problemas que antes não existiam…”.

E como usamos computador, usamos internet e temos os nossos “sites” preferidos. Num desses encontrei um artigo com o nome “10 Things You Need To Do Before Flying Into An Unfamiliar Airport”  e pensei… Ora cá está!… é isto mesmo.

Gosto de pensar que todos nós somos um bocadinho preguiçosos. Uns mais do que outros, mas eu assumo-me! E como a minha consciência ecológica me recorda que não devo gastar energia desnecessariamente entendo que se a roda já está inventada então só precisamos de a colocar a rodar…

O artigo é um pouco mais abrangente, mas ainda assim resolvi escrever um mail ao autor a pedir-lhe autorização para traduzir e adaptar. Como não me respondeu permiti-me o “abuso” de usar a ideia, parafrasear algumas dicas e fazer adaptar para uma realidade mais ultraleve.

Para não ser acusado de plágio fica AQUI o link original.  Mantive, no entanto, a estrutura logica e a ordenação – já vos disse que ou um bocadinho preguiçoso?

Na contabilização final não consegui chegar aos 10. Porque há coisas que nos Campos de Voo não se usam (“Progressive Taxiing”? ).

0 – Há voar e voar! Há ir e ter que voltar…

Eh eh eh…. Antes de começar os pontos mais abaixo e antes de ser acusado de confundir a “obra-prima do mestre” com a “a prima do mestre-de-obras” parece-me óbvio que antes de tudo o resto, a primeira coisa a validar é se temos condições para…

Essas condições, incluem o estado físico e mental do piloto e seus acompanhantes, o estado da sua aeronave e claro está o tempo. E entenda-se o tempo nos dois sentidos: clima e disponibilidade (razão têm os ingleses para terem duas palavras). E, se dá para ir e voltar…

Ah é verdade… já agora… Como não pretendemos ser donos do céu, deposite o seu plano de voo – sempre temos mais um par de olhos no nosso avião. Ou, para os mais dados ao sobrenatural, mais um anjo da guarda.

1 – Planeie a sua rota e reveja o espaço aéreo.

Se vai voar num espaço aéreo controlado, certifique-se que a sua aeronave está equipada com os instrumentos necessários para operar nesse espaço. Em Portugal temos legislação própria nesse sentido.

Para quem, como eu, já alguma vez foi apanhado pela fina malha da lei do Código da Estrada recordar-se-á desta pérola “do paleio legal” (perdoem-me os meus amigos juristas e advogados):

os factos descritos e provados não permitem concluir que a infração tenha sido praticada com dolo, mas subsiste a negligência, porquanto o arguido não procedeu com o cuidado a que estava obrigado. A negligência e sancionável nos termos do artº…” blá… blá… blá…

Tenho a certeza que é exactamente o mesmo nas infracções aeronáuticas… só que mais caras!!!

Familiarize-se com o espaço aéreo, com os pontos de entrada, saída, túneis VFR, destino e alternantes nas imediações.

Planeie bem… mas sobretudo, planeie ter de replanear tudo… principalmente se tem uma aventura aeronáutica pela frente.

Sim! Porque há coisas que não controlamos! “… era para estar CAVOK e afinal está farrusco…”, “… afinal a pista onde estávamos a pensar aterrar está congestionada com meios de combate a incêndios… “; “… era para ir por ali mas é muito alto e com esta temperatura não quero arriscar…”

Enfim… um sem número de situações.

Lembre-se que na aviação de lazer voamos por prazer…

/Nota do autor – desabafo/

Bem o agora “politicamente correto” afirma que temos de usar a expressão “voamos por gosto” em vez de “voamos por prazer”. Eu ainda não comi nenhum voo para dizer que “é um gosto” mas prefiro entender o prazer como derivado de prazeroso – que agrada ou causa prazer. = AGRADÁVEL, APRAZÍVEL, PRAZENTEIRO. Nada tem que ver com alguma conotação sexual que alguns (mal amados) lhe dão!

/Fim de nota do autor/

2 – Tenha um diagrama do aeródromo “à mão de semear”!

Sempre que possível assegure-se que leva consigo um diagrama do aeródromo para onde vai. Seja uma versão digital (para a rapaziada da geração Millennium) ou em formato papel para os mais, como direi, “vintage”! Sim!… “Vintage” é fino, não ofende e quem gosta de andar sem pilhas e carregadores no bolso sabe do que falo!

Veja o embaraço que é aterrar em Cascais o controlador dizer “exit on Juliet” e ficarmos a pensar: “isso é a primeira ou segunda? Do lado esquerdo ou direito… bolas!”

Claro está que, em caso de dúvida, nada como um “Cascais Tower, mother language. A saída é qual, em relação à minha posição atual?”.

Os Senhores Controladores são amigos dos Aviadores (e uns campeões da paciência e resistência ao stress) e, com certeza, nos darão uma indicação inequívoca.

Ainda assim, não creio que consigamos evitar pagar uma rodada no próximo encontro aeronáutico se esse senhor controlador for mesmo nosso amigo… Ou então arriscamos ouvir no rádio aquela expressão fantasticamente carinhosa e quase que maternal: “tenrinho!”

O mesmo se passará se, em Viseu, depois de um caloroso “uma boa tarde aos senhores” nos pedirem para “livrar a pista para a placa do aeroclube”. Neste caso o hangar vê-se muito bem. Mas para os mais distraídos, como eu, evita-se o “…a placa do aeroclube é a próxima à direita. Não é essa!

Com um mapa de aeródromo também evitamos ir a Évora em dia aniversário da Associação Aeronáutica, estacionar o avião e só depois perceber que o senhor vestido com um colete amarelo a abanar os braços estava à espera que o avião saísse da pista pelo taxiway N (depois de aterrar na  01) e não por uma pequena faixa de alcatrão que existe antes… (enfim, “tenrinhos!”)

Notem, por favor, que neste texto qualquer semelhança entre a realidade e a ficção e meramente…. Factual!

3 – E o telemóvel? Serve para quê?

Num mundo dado às novas tecnologias, às vezes esquecemo-nos de usar algumas.

Confiamos no mail, no facebook, nas sms, nos snapchats e hangouts , vibers e whatsApp mas falar?

– Está quieto… – está a ficar “démodé

Uma chamada telefónica antes de partir permite saber “uma data de coisas” que dão um “jeitásso”… os horários de funcionamento, se há gasolina e quanto custa e, para o conforto máximo do passageiro, se o bar está aberto!

Permite ainda aumentar a segurança de quem chega e de quem já lá está. Além de ser um óptimo meio de relacionamento social. Uma chamada para um director de aeródromo permite saber se não vamos ter de usar a frequência da protecção civil porque em época de fogos operam nessa pista os meios de combate a incêndios (caso de LPCB)

Mas permite também obter outro tipo de informações mais aventureiras como por exemplo:

oh meu amigo! Aterre lá à vontade… não está lá ninguém… Por isso que quiser levar o cesto do picnic esteja à vontade!… com quem?… com a … ah!… está bem… você lá sabe!… 

… não, não! Para isso tem de saltar a cerca… a estação de serviço é perto mas tem de dar a volta. Tenha em atenção se não há por lá gado bravo!!!…

Como dizia a minha avozinha: “Para bom entendedor….

4 – Conhece alguém que tenha usado esse aeródromo?

Hoje, onde as redes sociais estão enraizadas! Onde temos mais amigos do que o tempo disponível para cultivar uma verdadeira amizade… Então não conhecemos um amigo, ou amigo do amigo, que nos possa dar umas dicas?…

êh pah! Mas vais para esse porquê? O “tipo” não nos quer lá… é uma chatice para ele…ahhh é verdade! E cobra-te quase vinte euros para aterrares e ficares com o avião na rua!…

Aterras antes seis milhas ao lado. É pertinho. Vê-se do ar… O dono é impecável… tem gasolina a 1.2€/l e ainda te guarda o avião no hangar. DE BORLA!

5 – Estude os procedimentos de chegada e saída antes de descolar.

Alguns aeródromos (e campos de voo) têm procedimentos próprios… Ou porque não se pode voar sobre casas no enfiamento das pistas (LPSC), ou porque não se podem sobrevoar centros históricos (LPEV), ou porque têm tráfego considerável e têm pontos de entrada definidos (LPCS).

Em todo o caso procure saber das restrições antes de descolar. Em Portugal pode sempre optar por fazer uma visita ao site da NAV.pt, ou então consultar o CAVOK.pt.

O Google é nosso amigo e se, na “caixinha da pesquisa” (para aqueles que se confessam manifestamente info-excluídos é aquela coisa por baixo das letras, e que tem um teclado e um microfone do lado direito) escreverem “manual vfr” seguido do nome do local para onde vão… Quase que arriscaria dizer que em 99% dos casos o primeiro resultado devolvido tem tudo o que se precisa saber.

6 – Estude o destino em si.

Valide quais as pistas que estão disponíveis, o seu cumprimento, a altitude do aeródromo e a altitude do circuito. Verifique ainda as frequências rádio em uso.

7 – “Double Check” a performance da sua aeronave… (e a sua!).

Descolar de Benavente de manhãzinha para ir comer uma sardinhada a Portimão não é o mesmo que descolar a meio da manhã para comer um arroz de cabidela em Viseu.

E é ainda mais importante se, depois de aterrar em Viseu ao final da manhã, resolvermos que estamos de dieta e preferimos ir comer algo mais leve a Chaves – umas fatias de presunto, por exemplo.

Para os menos dados a esta coisa da “aerocomezáina” (Não! não vem no dicionário.), estou a referir-me às diferenças de performance motivadas pela altitude de densidade.

Provavelmente estamos todos muito confortáveis com as distâncias de aterragem e descolagem da nossa aeronave no sítio onde, normalmente, operamos..

Aterrar em terra é diferente de aterrar em relva que é diferente de aterrar em alcatrão. Aterrar a 110ft é diferente de aterrar a 2061ft!…Então no Verão!

E não é só a performance da aeronave. A nossa performance é tão ou mais importante. O checklist “IM SAFE” permite um bom ponto de partida. Depois é só validar se nos sentimos confortáveis com o voo em si e com os níveis de concentração que iremos necessitar.

8 – Os controladores são nossos amigos!

Não me canso de repetir isto! Em todas as interacções que tive com controladores (nacionais e estrangeiros) sempre me responderam de forma cordial e simpática.

Mesmo quando não é possível autorizarem o que pretendemos fazer… continuam a ser muito simpáticos:

Por exemplo:

– Salamanca, CS-ULJ, heading NINOS westbound, ten miles to Portuguese border, request climb 3000 feet due turbulence.

CS-ULJ, Salamanca. Sorry sir, you are allowed to fly 1000 feet or below. After the border contact Lisboa Information on 130.90 and ask then to climb if you please

Ou este outro:

Lisboa Information, CSULJ and two other aircraft, over NINOS, climbing flight level five zero heading Viseu. Estimated time of arrival within four five minutes.

CLJ, Lisboa. Sejam muito bem-vindos! Identificado como reportado. O QNH do Porto para referencia é ….

– Sabe tão bem ouvir isto! Com esta cordialidade e simpatia! E em Português! (em Português deve-se, naturalmente, ao facto do controlador se ter apercebido do meu sotaque…)

(PROPS para os Controladores!)

9 –“Os amigos são para as ocasiões!”

Eu sei, eu sei! Este é redundante, porquanto se pode incluir no número 4 anterior!

Mas está cá porque as palavras abaixo não são minhas! São antes de um grande amigo, para com quem tenho uma dívida de gratidão muito grande – afinal de contas foi responsável pelo meu desempenho em todas as provas escritas feitas no antigo INAC – e pelo qual nutro especial admiração e grande estima.

Assim, antes de enviar para publicação enviei-lhe este texto para ele rever (não fosse eu estar para aqui a dizer disparates)

E claro, na sua imensa paciência, teve a amabilidade de ler o texto e responder:

Sobre sugestões a única que eu faria seria de adicionar os links para alguns sites importantes para o planeamento dos voos nacionais e internacionais, nomeadamente:

 http://www.nav.pt/  

O site tem informação actualizada e muito importante especialmente para nós, seguindo a janela do lado esquerdo AIS (Aeronautical Information Services), pois a partir daí podemos obter acesso a variada informação desde a publicada no Manual VFR ou até no AIP de Portugal e ainda, por exemplo, receber briefings meteo ou mesmo preencher o FPL online (embora para algumas destas operações seja necessário efectuar um simples registo)

– http://cavok.pt/

Não são precisas muitas apresentações sobre o site mas de facto é uma fonte muito boa para quem voa especialmente no nosso espaço aéreo.

– http://notaminfo.com/international

Um dos sites mais completos que podemos utilizar e mais bem preparados , ou não fosse originário do UK. Basta um simples registo e explorá-lo durante algum tempo para podermos constatar a importância da imensa informação fornecida.

– http://www.eurocontrol.int/articles/ais-online

Site do Eurocontrol onde poderemos ter acesso a informações importantes sobre os espaços aéreos de outros países, nomeadamente aos diferentes AIP (Aeronautical Information Publications). Para aceder a estes AIP a quase totalidade implica depois um registo, tal como acontece para o acesso ao AIP de Portugal)

Muitos mais sites existirão, mas para mim em termos de planeamento de voo, estes são dos mais importantes.”

(…)

“Um Grande Abraço e muitas voatanas em segurança,”

Estou absolutamente convencido que me esqueci de algo importante. Assim, desafio os leitores a escreverem nos comentários a vossa experiência.

O que mais se deve ter em conta quando se voa para um destino que não nos é familiar?

Um Grande Abraço e muitas voatanas em segurança

Carlos Miguel Costa. 25 de Julho de 2017. Tradução e adaptação do original “10 things you need…” por Swayne Martin. Fotos por Milada Migerova, Andrew Neel, Chris Lawton Richard Tilney Bassette e rawpixel.com

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