…ainda o diabo do vento!

Era dia de Reunião da Assembleia Geral da APAU num mês qualquer, talvez aí do ano de 2002 ou 2003.

Escrevo aqui reunião com maiúscula porque, apesar de dezenas de anos de associativismo aberto, há ainda muita gente que confunde Assembleia Geral com Reunião da mesma e que, o que pode uma, a AG, pode a outra, a RAG Ordinária ou extraordinária.

Bem, mas para o caso aqui isso nem importa porque não é da Reunião que quero falar, de como decorreu, o que é que se discutiu e decidiu, coisas todas próprias der uma Acta que, imaginam vocês, foi escrita, publicamente divulgada no universo dos associados, arquivada e hoje, provavelmente, já nem materialmente existe. Não é disso que venho falar porque vento não constava nem tinha que constar de tal Acta, mas das circunstâncias meteorológicas que lhe caíram em cima no lugar e no tempo.


Era dia de Reunião da AG em Santarém porque eu, então seu Presidente, acordando com a Direcção da Associação, a havia marcado para esse dia nas instalações do Aero Clube, tentando aproximar o mais possível os extremos geográficos do País, na perspectiva de uma boa participação dos associados.

Por questões de eficácia, a MAG (Mesa da Assembleia Geral), além de mim, tinha dois Secretários residentes em Montemor-o-Novo.

Um deles, o saudoso Dr. João Rego, saiu no seu avião directamente para Santarém. Eu saíra antes com João Almeida Mendes, o outro Secretário, aluno em fase adiantada (infelizmente também já fora do nosso convívio hoje), com uma primeira perna ligando a Benavente, onde almoçaríamos, e daí seguindo para Santarém.

O voo assim feito, serviria para dar confiança e prática ao aluno em, posto aos comandos e pronto para realizar as aterragens em Benavente e em Santarém, onde nunca havia aterrado antes.

Nos contactos rádio foi-nos dito que a coisa tremia bastante em Benavente, se bem que com o vento enfiado para a final. Confirmámos isso na aproximação, de tal modo que o aluno se sentiu abaixo da possibilidade de uma aterragem segura e me sugeriu para a realizar eu, facto que já havia decidido, estando apenas na expectativa do seu próprio comportamento para assumir a manobra quando se mostrasse indispensável.

Assim fizemos, com ele acompanhando de mãos e pés aliviados nos comandos, e aterrámos.

Durante o almoço, alguém informou que em Santarém a coisa não estava fácil. Vento forte e instável em intensidade do pior quadrante naquela pista, isto é, do lado da colina e da cidade. Sabemos que naquelas condições, as descendentes são quase uma certeza, dependendo dos momentos de estável/instável na intensidade para a atitude segura de colocar o estojo no chão, e obrigando a grande atenção (e tensão) em toda a final e no momento do toque.

Não era uma boa perspectiva para aterragem pelo aluno. Mas como se diz “o Rei manda avançar mas não manda chover”, e como a reunião convocada dificilmente se realizaria sem a presença do Presidente e dos Secretários da Mesa, lá partimos para a viagem curta, confiando no comprimento da pista e nas possibilidades de manter o avião em voo, escolhendo o momento do toque no solo.

Confirmámos a ventania e a instabilidade pelo permanente e variável movimento vertical do viaduto da auto-estrada que subia, descia e inclinava em permanência, passando de novo os comandos para mim nessas condições e porque do chão nos falaram em vento de 18/20 Kt. com rajadas.

Cautela extrema, boa velocidade acima do recomendado com tempo suave, passámos o viaduto, experimentámos o solo e ficámos para sair da pista logo na primeira saída de taxi.

Achámo-nos gente de sorte e comentámos isso entre os dois!

E confirmámos depois essa sorte, porque assistimos a muita gente aflita para colocar as três rodas do trem no chão, balançando de ponta à ponta da envergadura, alguns quase tocando o piso com uma ou a outra ponta e, alguns mesmo, borregando e voltando para casa com prejuízo para o brilho do conclave convocado.

Vento (Large)

No fim da reunião percebemos todos que as coisas tinham piorado.

Bem, disse o Secretário (cento dez quilos de gente), lá tem você de descolar!

E foi. Na nossa vez, SkyRanger (Rotax 582) alinhado na soleira, motor a fundo, rodas travadas e só depois libertas, predisposição de aguentar o avião no chão o maior tempo e velocidade possíveis e, depois, deixá-lo sair ajudado de manche a fim de ganhar a maior altura no menor tempo possível, e…

Éh rapazes! Aquilo era uma maluquice de indicadores no painel! Ponteiros do variómetro e da velocidade malucos; bola a um lado e a outro, a pobre da máquina subia e descia aos solavancos, a velocidade marcada variava entre os 60 e os 20 e o variómetro era uma indecisão entre o sobe e o desce; os nossos ombros chocavam dentro do espaço apertado do cockpit e palavras entre nós… nem uma.

Atrevi-me na primeira oportunidade a meter nariz para o rio e afastámo-nos da fervura, progressivamente ganhando altitude e retomando o rumo a Sul em direcção a Montemor-o-Novo.

O resto da viagem decorreu sem história e ainda com poucas palavras.

Aterrámos, hangarámos e deixámos uma conversa para o dia seguinte.

Mas não foi no dia seguinte. Só dois dias depois nos encontrámos e a primeira fala foi minha.
Então, João?
Óh homem, não me diga nada! Ainda me doem as pernas.
Doem-lhe as pernas? Mas com os diabos, você não veio de Santarém a pé!
Pois não, não vim a pé. Mas devo ter contraído tanto os músculos das pernas que fiquei com elas doendo até agora.

Sobre as peripécias do voo, propriamente dito e na perspectiva de um debriefing com aluno, não vou falar aqui e agora, e até fico na expectativa de algumas opiniões de pilotos mais habilitados do que eu, ou mesmo de algum que lá tivesse estado também, que queiram aqui meter colher construtiva.

José Brás. Foto José Rocha

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