Por que é que os aviões voam?

Por que é que os aviões voam? – 15 minutos de reflexão

Dizem que os meus olhos brilham quando se fala de aviões!
Terá sido sempre assim!
Quem me conhece desde que sou gente, diz que, ao contrário da habitual oscilação vocacional entre polícia, engenheiro, médico, padre e padeiro, fui sempre peremptório na exclusividade e na unicidade do que eu queria ser quando fosse grande: piloto de aviões!

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Passaram-se os anos e passei a ter novas hipóteses para ofuscar o Sol…
A planificação dos cronogramas tem-me incumbido de dar a primeira aula de novos cursos de pilotos. As apresentações pessoais constituem momentos de excelência para tentar perceber as motivações aeronáuticas de cada aluno.

Procedo à abertura solene das hostilidades, celebrada com uma garrafa da melhor colheita de extemporaneidade: “– Por que é que os aviões voam?…“…
A sala mergulha num vazio anecóico…
Uma resposta tímida atrasa-se e interrompe o demorado silêncio sepulcral…
Vem atrás de uma fácies simpática, em tom de ponto de interrogação, sintoma de quem duvida do que está a dizer mas que gosta de exercer a amabilidade de apresentar uma proposta de explicação, por mais estapafúrdia que pareça, só para não deixar o instrutor sem uma réplica que o resgate do ostracismo a que foi votado pelos alunos…
Quebrado o iceberg, sucede-se um atropelo ao receio nervoso de falar, alguém enche-se de coragem e dispara um afoito encadeado de premissas científicas cuja desarticulação inviabiliza a possibilidade de se fazer solução para o enigma…

Três…
Com laivos de irmandade forjada há instantes nas brasas da indignação, prolifera a cumplicidade nos olhares que inquirem auxílio recíproco perante a premente escassez crescente de inícios inacabados de respostas…

Dois…
Reinstala-se o silêncio que eclode num suspense que testa os limites do manómetro da curiosidade…

Um…
Redutora na forma, complexa na abrangência, a resposta tem o condão de desarmar uma turma e fazê-la implodir numa paleta de caos…

Lift-off…
– Os aviões voam porque o ar é denso!“, digo eu.
Houston, we have a problem…”…

P51107-123506A assumpção mais imediata e generalizada é de que eu sou um vendedor de patranhas em forma de roupa interior de dimensões reduzidas, vulgo tanga, feita da mais fina adiposidade de bicheza ofídia…O esgar de quem sente que o seu intelecto acabou de ser devassado também sai muito bem… Irrompem ainda os esboços de uns incipientes e pouco convencidos instantes “eurekianos” à lá “Hummm… Pois… De facto… Hummm… Faz algum sentido… Hummm…“…

Algumas aulas de Princípios de Voo e de Meteorologia depois e uniformiza-se uma reacção do género “O mamífero de grandes dimensões sempre tinha razão!…“!
Tento fazer de cada aula um espaço privilegiado de partilha, onde se podem colher frutos suculentos e saborosos de aprendizagens biunívocas e mútuas.
Para isso, e lançando os alicerces para um tratado vertido numa quantidade generosa de volumes, rego a semente da entropia ao dizer que há mais duas coisas que fazem os aviões voar: o dinheiro e os papéis!
Furtando ao tema uma das principais características do ar – a densidade – começo aqui pelos últimos…

Mesmo que cada vez mais convertidos em bytes, bits ou qualquer-coisa-Hertz, foram e são os planos de voo, as cartas de navegação, os mais variados manuais, os manifestos de passageiros e de carga, as fitas de progresso de voo, as diversas publicações aeronáuticas, …, que fizeram da aviação um epítome da realização do génio humano!

Ir à internet e acompanhar o tráfego aéreo mundial pode ser uma experiência avassaladora por nos instigar cogitações inquietantes e assoberbantes: pensar no que está por trás do fluxo organizado, seguro e expedito de tantos aviões chega a ser desconcertante!

Pode infligir-nos uma vertiginosa sensação de impotência cognitiva que nos impede de atingir a plena magnitude desta concretização das capacidades humanas!
ICAO, EASA, ECAC, IATA, FAA, Anexos, SARPs, AMCs, GMs, NPAs, …, …, … Aborrecidos?… Talvez…

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Mas com o potencial inexaurível que o Homem tem para a asneira, ou eram rédeas curtas ou o there I was deixaria de ser um aperitivo para a insuflação de egos bacocos e far-se-ia uma bem real tragédia grega com o céu como palco!…
Por isso tinha que ser a aviação a proporcionar terreno fértil para as Leis de Murphy… Demasiado fértil…

Adaptadas e baralhadas, as Leis de Murphy dizem que “se existir mais do que uma forma de executar uma tarefa e se de alguma dessas formas resultar um desastre, certamente será esse o modo escolhido por alguém para executá-la“… isto é… o avião ainda voava mal a direito e já havia alguém a tentar voá-lo invertido…

Nesse sentido, e por uma série de razões mais conhecidas ou menos incógnitas, a aviação terá constantemente a capacidade natural para atrair…:
… os conscientes e os inventores, os competentes e os detractores…
… o profissionalismo e os dedicados, a irresponsabilidade e os iluminados…
… a integridade na atitude e na postura, o interesse velado e a vontade obscura…
… a desmistificação que ajuda a consumar paixões verdadeiras e a ilusão saloia que apenas glorifica e perpetua mitos de pilotos e hospedeiras…
E terá sempre a capacidade de atrair aqueles que, como eu, mesmo sofrendo dos efeitos do ADN (Afastamento da Data de Nascimento), nunca deixarão de alimentar a criança que há em cada um de nós!
Aquela criança que, no meu caso, olha para o céu de cada vez que parece ouvir um avião!
E que se sente maravilhada e fica extasiada ao vê-lo, com os olhos a brilhar como se fosse a primeira vez que o fizesse!

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Um Ferrari faz virar algumas caras apreciadoras mas um avião, mesmo que signifique nada em si mesmo para alguém, encerra um mistério fisiológico que extravasa completamente a indiferença de toda e qualquer pessoa!

Se de provas precisasse, há pouco tempo reuni evidências irrefutáveis disso mesmo…
Uma pessoa bem crescidinha, adulto a quem a aviação diz(ia!) basicamente nada, viu, pela primeira vez, bem de perto, os aviões a aterrar num aeroporto…
A cada avião, um novo sorriso, pueril e honesto na sinceridade e na genuinidade, uma inexplicável expressão de satisfação incontida como que a dizer: “Então?!… Não há mais?!… Isto é tão fixe!!!“!

Por seu lado, o efeito DNA (Data de Nascimento em Afastamento) traz a confrontação entre opções e escolhas: um exemplo foi a minha escolha pela opção Geologia (a (des)propósito, Geologia é uma coisa e Arqueologia é outra rigorosamente diferente!!!) …
Continuo a ser confrontado amiúde com uma indagação recorrente: “-Porquê a Geologia?!…”…
Admito que vi na Geologia um meio: tendo que fazer uma nova escolha em função de outra nova opção, teria (terei…) que ver na Geologia um fim.

Mas qual a relação entre a Geologia e a aviação?
A malta da Geologia dedica-se ao estudo dos objectos que dão lugar ao título profissional alternativo dos geólogos: calhaus!!!
Desse modo, a Geologia proporcionou-me um vasto leque de valências, umas do foro profissional, outras de cariz pessoal.
Com a Geologia passei a dispôr de ferramentas para lidar com calhaus… com olhos… os piores de todos, os que balbuciam baboseiras a um ritmo incomensurável de loquacidade verborrágica…
Prestando mais circunspecção a este momento, que se quer eivado de seriedade, na prática, da água potável, aos recursos minerais, passando pela protecção e pela preservação do ambiente, foi o trabalho dos geólogos que permitiu ao mundo trilhar boa parte do trajecto que nos trouxe até este dia!

Enquanto geólogo, e em função da área pela qual enveredei no fim do curso (a Petrologia Orgânica… leia-se, petróleo e carvões), passei a integrar, ainda que de forma muito indirecta, o “gang” que assalta as pessoas de cada vez que elas abastecem as suas viaturas com combustível!…

Em relação a isso, por vezes surge na aviação uma “condição que ocorre quando todos os tanques de combustível ficam misteriosamente cheios de ar com baixo índice de octanas”…

Com a Geologia posso, portanto, brindar os incautos com a teoria que defende que, quando os respectivos motores param, os aviões caem… como calhaus…
Tendo por base musas como o David Copperfield ou o Luís de Matos, o grupo motopropulsor dos aviões pode ser visto como uma forma elegante de sublimar cifrões…
Sejam novas jazidas de hidrocarbonetos, garantes do conforto dos pilotos (“o ‘barrote’ é apenas uma ventoínha gigante que mantém o piloto fresco: quando ele pára, o piloto começa a transpirar...”) ou de matérias-primas que, no fim da linha, possibilitam o fabrico dos aviões, a Geologia, ciência de uma larguíssima multidisciplinaridade, faz com que o dinheiro se corporize enquanto factor necessário e essencial para o voo dos aviões.

Por fim, a Geologia facultou-me uma visão diferente do globo e do mundo.
O tempo medido com a régua geológica redefine os conceitos que temos acerca da nossa dimensão enquanto humanos.
Nesse sentido, voar permite-nos uma visão privilegiada das montanhas cobertas de neve, dos vales esculpidos por glaciares, dos rios que inundam os oceanos, do verde das florestas, das areias dos desertos, dos rebanhos de nuvens que pintam o terreno com sombras de algodão doce, do vermelho dourado que reitera a perenidade do fim de cada dia, das ilhas de luz que se espraiam e perdem no escuro intemporal da noite…

Uma visão que nos faz contemplar a nossa finitude frágil!

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O voo esmaga-nos os sentidos e torna tangível a insignificância da nossa existência!
O desejo de vencer os grilhões da gravidade estará arreigado à raiz humana, à semelhança do fascínio pelo fogo que nos liberta do medo do escuro.
É por alguma razão que há aviões chamados Mriya (“sonho” em ucraniano) e Dreamliner!

E será também por essa razão que a nossa essência animal sempre invejou os pássaros!
Afinal, uma cabeça baixa reduz-se à perspectiva do que é rasteiro.
Já um queixo bem levantado alcança novos horizontes, muito maiores e muito mais amplos: “vê mais longe a gaivota que voa mais alto”!

Entre outros, autores como Richard Bach, Antoine de Saint-Exupéry, Brian Shul e Alain de Botton fotografaram com palavras os diferentes elementos, domínios, vertentes, versões e variações da aviação.
Imortalizaram o encanto do voo e condenaram-no à eternidade.

No entanto, tal como os nossos pensamentos são tutelados por descargas de sódio, de potássio e de cloro (que terão algum carácter aleatório ou pensaríamos todos da mesma forma!), as nossas percepções são diferentes.

Assim, por mais que o folhear das brilhantes descrições e das vívidas narrações factuais, literárias, poéticas, alegóricas ou líricas seja realístico, voar enquadra-se nas sensações só assimiláves pela experiência!

Andy Warhol terá dito que “in the future everybody will be world famous for fifteen minutes.”…

Eu gostaria apenas que todas as pessoas tivessem a possibilidade de voar durante 15 minutos: acredito que o mundo tornar-se-ia num sítio bem melhor e bem mais bonito!

Pedro Cruz

4 comments

  • João Branco

    Palavras sábias, Pedro!

    Ainda hoje, de vez em quando, nos asa alta, trem fixo, porque só aí dá para fazer isso, olho para baixo, para a roda, quando estou lá em cima. Por algum motivo, o meu cérebro associa, inconscientemente “roda”, com “chão”, mas aquela roda está bem no ar, e o chão lá bem abaixo… E então penso… Fdx… Estou mesmo pendurado no ar… Espetáculo! É magia!

    Por muita engenharia e por muito que eu saiba porque e como estou ali, o experimentar o voo é, ou devia ser sempre… Magia 🙂

  • Pedro Cruz

    Muito obrigado, Branco!

  • Zeca Baleiro

    Se os aviões voam porque o ar é denso então como voa o space shuttle onde não há densidade do ar? É tudo uma questão de diferença de pressões ou então potência excessiva como o caso dos foguetões.

  • Carlos Costa

    Excelente artigo…
    Desde que foi publicado que volta e meia passo por cá para o reler…
    Está tão bem escrito que nunca tive coragem de acrescentar seja o que fosse!
    (IMHO)
    Ainda assim, não concordo… Os aviões (refiro-me apenas aos “mais pesados do que o ar” e não aos engenhos extra-atmosféricos) voam porque têm asas!
    A densidade do ar, creio eu, é mais um fator contributivo …
    O ar é tão denso para um avião como é para mim. E eu, com muita pena minha, não voo sem ajuda de umas asas.. 🙂 🙂

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