Cábulas que salvam vidas

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Numa actualidade em que cada vez mais a preocupação dos utilizadores é encherem o painel de instrumentos de televisões e ecrans, aipédes com ápes para tudo e mais alguma coisa, será que os conceitos básicos de segurança que costumávamos interiorizar e memorizar ficaram lá para trás? Vamos relembrar algumas mnemónicas fáceis de memorizar que podem fazer toda a diferença.
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Uma hélice que começa a rodar e provoca ferimentos. Um avião que se atravessou à nossa frente na perna final. Uma falha de motor à descolagem porque a torneira do combustível estava fechada. São situações para as quais um APP tão na moda estes dias, não consegue prever. Interessa minimizar ao máximo as hipóteses destas situações acontecerem. Recorrendo aos ensinamentos que memorizei e que pratico religiosamente em cada voo que tenho o privilégio de fazer, eis algumas das “cábulas” ou “ mnemónicas” como queiram chamar que utilizo e que vos posso garantir já me salvaram o cabedal a mim e a terceiros muitas vezes:

Antes de ligar o motor: STAMP

Security – O travão está ligado? Há alguma coisa solta que possa provocar dano ou perigo? O passageiro está em segurança?
Throttle – A manete do acelerador está desactivada? Tens o pé no acelerador? (Num pendular)
All Clear – Estão pessoas à volta? O avião está num local sensível em relação a outras aeronaves?  Olhaste para trás?
Magnetos – Os dois botões dos magnetos estão ligados? O master está ligado?
Prop – Gritar com convicção para as redondezas “ Clear Prop!” (ou “Vai rodar!”, em terras lusas)

Após o motor pegar: CHIFTWAP (acções vitais antes da descolagem)

Controls  – Verificar o livre movimento dos controles.
Harnesses  – Verificar os cintos de segurança e os capacetes, se têm a viseira trancada ( não queiram abrir a viseira na descolagem!)
Instruments and Ignition – Verificar se a pressão do óleo subiu, se as temperaturas estão a subir, o alinhamento da bússola com a pista, ajustar o altímetro e as frequências do rádio, se o relógio funciona. Aqui testo os magnetos também.
Fuel – Foi verificado visualmente o nível? Foi abastecido? A tampa está colocada? E sobretudo…a TORNEIRA está aberta?
Trim – verificar se os flaps ou o trim estão seleccionados convenientemente para a descolagem.
Wind and Weight – Sempre vamos descolar na mesma pista que pensávamos? O vento não mudou? Isto consegue levantar nesta pista com dois gordos com o depósito cheio?
All-Clear – Olhar para a pista, para a perna final, e para o circuito sobre o aeródromo, se não existe nenhum outro aparelho a preparar-se para aterrar ou a circular. (Isto é como uma passagem de nível. A cancela pode estar aberta e dizerem-nos do ATC que “está tudo bem”, mas olhar mais uma vez não faz mal nenhum e faz bem à pele)
Power – Verificar na corrida da descolagem se é atingido o full power.

Durante o voo antes de fazer manobras arrojadas: HELLS

Height – Será que quando acabar a manobra que pretendo fazer vou estar pelo menos a 1000ft AGL? (No meu magro entender esta é a principal causa de acidentes, tenho muito respeitinho por isto)
Engine – Como estão as temperaturas? E a pressão do óleo?
Location – Estou sobre casas? Sobre uma estrada movimentada? Sobre postes de electricidade e fios de alta tensão?
Look Out – Não vou bater em nada nesta manobra? Noutros aviões? Em montanhas?
Security – O cinto está apertado? E o capacete?

Paragem de emergência do motor: TIFS

Throttle Off – Desacelerar e verificar a manete.
Ignition Off – Desligar os magnetos
Fuel tap – Fechar a torneira (por vezes não é acessível em voo, por exemplo nos pendulares)
Security – Dar um briefing o mais possível claro e conciso ao passageiro sobre o que deve fazer.

Eleição do terreno para aterrar de emergência: SSOS

Size – O terreno é suficientemente grande?
Surface or Sea – O terreno está lavrado? Como é que são os sulcos? Tem árvores? Gado? Está atascado em água? Existem outros ao pé que possam ser usados in extremis se alguma coisa correr mal? Vamos ter de amarar? Como são as ondas? Consigo nadar até à margem? Está alguém no local, ou um barco que me possa ver e pedir socorro?
Orientation – De que lado sopra o vento? Olhar para o fumo das fábricas ou para as pequenas ondas provocadas pelo vento nos lagos. Ou relembrar a orientação da pista em que se descolou. Ou como estava o Sol em relação a nós quando descolámos.
Slope – Se tiver inclinação, convém aterrar a subir.

Verificações no vento de cauda para aterrar (Downwind checks) : FAWNTS

Fuel – Verificar se existe combustível suficiente para um eventual borrego.
All-Clear – Verificar se não existe nenhum outro avião no circuito, ou preparando-se para aterrar. Ver com olhos de ver. Esta é uma das principais causas de acidentes aéreos. Nunca confiar apenas no ATC ou contar que os outros nos estejam a ver.
Wind – Se não instruído pelo ATC, verificar a manga de vento ou confirmar o sinal no solo da pista em uso.
Nose Wheel – Verificar se a roda de nariz está alinhada, mantida a direito.
Throttle – Verificar se está na posição desejada
Security – Cintos e capacetes apertados

Estas são indicações de carácter geral de efeito comprovado, ensinadas de um modo intensivo em todo o syllabus de aprendizagem do Curso PPL(M) Ultraleve no Reino Unido. A utilização e mecanização destes procedimentos, apesar de não garantir a 100 por cento que não hajam acidentes, sem dúvida que os minimiza e reduz drasticamente, proporcionando milhares de horas com desfechos felizes a muitos dos utilizadores de ultraleves.

Porventura sei que terão outras dicas a acrescentar. Esta é a minha contribuição para o debate da segurança aeronáutica de todos nós. Estejam à vontade para acrescentar algo nos comentários abaixo.

Bons voos.

Mike Silva

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