Como voam os Pendulares?

Não é só um bocado de pano… A asa do Flexwing pendular é uma criação tecnológica desenhada para recriar o voo dos pássaros. Mas como é construída? Porque é que é flexível? Como descreve uma curva? Tudo o que queria saber sobre a concepção destes extraordinários, simples e populares aparelhos voadores e tinha vergonha de perguntar…

Eu sei… Parece um bocado de pano com um tubo… Estes aviões sem manche, sem lemes de profundidade nem de direcção, nem ailerons nem flaps, vêm para aqui voar para ao pé dos outros e ao fim do dia tiram-lhe a asa e levam o resto para casa.

Pfff… A asa!.. Um bocado de pano com uma barra agarrada para puxar para a frente e para trás e pronto! Mas como é que funciona aquela ginga-joga? Como é que aquilo… vira, por exemplo?

Apesar já em 1917 se usar uma barra triangular para controlar uma asa, e da asa delta ter sido criada por Francis Rogallo e pela NASA nos anos 60 com o PARASEV, foi nos anos 80 que se deu o “boom” dos flexwings em todo o Mundo. Foram nestes anos que muita gente incluindo eu, tomaram contacto pela primeira vez com os pendulares. Pareciam tão simples, que quase tornavam o acto de voar em algo banal!

Eu via aqueles papagaios asmáticos a voar quase parados sobre a Costa da Caparica, e perguntava a mim mesmo se eu não conseguiria fazer um na garagem. Pareciam tão simples… De repente, por motivos que nunca percebi, os pendulares desapareceram do mapa em Portugal, mas continuavam a ser fabricados e vendidos às paletes no resto do Mundo. Nunca mais tive a oportunidade de contactar ou perceber como funcionavam estas curiosas máquinas.

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20 anos mais tarde, como diria o José Cid, eis-me numa quinta agrícola perdida no meio da Inglaterra rural, a preparar-me para instalar a asa num Pegasus Quantum, um dos pendulares mais vendidos no Reino Unido. Devido ao grande número de aparelhos que crescem como cogumelos por toda a parte, o armazenamento dos mesmos costuma ser um problema, onde um hangar ou barracão de alfaias agrícolas fica rapidamente preenchido. Por isso opta-se por desmontar a asa, e arrecadá-la transversalmente ao lado do trike todos os dias. Há até quem os leve para casa.

A asa é guardada num pequeno trolley com rodinhas, em posição vertical, que vou arrastar agora cá para fora. Coloco a barra de controlo no chão e a asa repousa agora quase na vertical com o nariz também no chão. Empurro o trike sobre a barra de controle, passando por cima dela com a roda da frente. O pilar do trike, é então acoplado à asa, por intermédio de um perno com contra-porca, que leva depois um freio de segurança. É sobre este perno que todo o trike e os ocupantes se vão suspender! Uma vez acoplado o triciclo, puxo-o novamente para trás, e a asa fica agora na posição horizontal, mas ainda no chão.

É tempo agora de verificar visualmente a asa, e aprender um pouco sobre a sua constituição.

A verificação pré-vôo desta asa é crucial, com muitos pormenores que não existem noutros aparelhos. Sendo flexível, a asa não tem bordo de fuga rígido,e o bordo de ataque é um simples tubo de alumínio. A geometria dos tubos que formam o bordo de ataque é garantida por um engenhoso sistema de esticadores com cabos de aço e roldanas que é apertado na traseira do tubo longitudinal da asa. Toda a estrutura da asa se encontra suspensa, quando em descanso no solo, por cabos de aço ligados a um poste central sobre o topo da asa.

12074706_10206802367834368_2540205171050340485_nQuando em voo, um conjunto equivalente de cabos em posição exactamente oposta por debaixo da asa, garante a rigidez do conjunto. Muito cabo de aço, portanto. Cerca de 60 metros ! O aerofoil da asa, ou seja, o formato que lhe permite ganhar sustentação, é garantido por inúmeros battens ou filetes de alumínio inseridos no próprio pano da asa, em baínhas costuradas para o efeito. Cada um destes filetes é mantido no sítio com um pequeno elástico na ponta, que é necessário verificar um a um. Estes filetes são calibrados regularmente, sendo comparados com um desenho à escala real.

O cone do nariz é guardado separadamente, para não danificar, pois a asa assenta em armazenamento sobre o nariz. É necessário instalar o cone antes do vôo, que é preso por velcro.

Apesar de parecer constituída por uma simples folha de tecido, a asa tem na realidade duas folhas sobrepostas, que se unem praticamente no chord da asa. O material das asas é normalmente Dacron e Ultralam muito susceptíveis à acção dos raios UV, pelo que é necessário efectuar um teste designado por Bettinson ( Betts test) regularmente. Em caso de dúvida, pode-se carregar com força com o polegar no tecido. Se ele furar ou rasgar, ou mesmo deixar ficar uma ruga, não há voo para ninguém!

Existem pequenas janelas em cada um dos lados da asa para verificar os pinos de segurança dos tubos do bordo de ataque ao tubo longitudinal . E outra janela de inspecção na traseira do tubo longitudinal, um local nevrálgico para verificar todo o aperto da asa pelo sistema de tracção que falei anteriormente. Preciso de passar os dedos em cada cabo de aço, e verificar se não existe nenhuma ponta desfiada. E pronto!

Graças à ajuda de um pequeno macaco hidragás (semelhantes aos dos porta-bagagens dos carros) , o pilar é empurrado para cima juntamente com a asa! Basta agora introduzir a barra de suporte dianteira, que segura o pilar principal à frente do triciclo. Que é segura por pinos mantidos no local por freios. O trike está montado! Procede-se agora ao resto da inspecção do trike, antes do voo.

Ah, o vôo…a fase mais curiosa e intrigante do pendular. Assim de repente, olhando para o avião parece fácil. Basta “ mexer” a barra de controle e inclinar o avião para onde se quer “ir”. Mas existem fenómenos no comportamento da asa que escapam ao comum dos entusiastas. O facto deste aparelho ser chamado também de “Pendular”(Weightshift) e “ asa flexível (Flexwing) são pistas para o seu comportamento em vôo. A asa precisa de flectir!

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Temos aqui uma situação cuja asa não tem superfícies de controlo. Todo o controlo do aparelho é feito por uma barra ligada de um modo rígido à estrutura da asa. A estabilidade inerente deste avião, não encontra paralelo em todo o espectro da Aviação. É um aparelho que “ procura” permanentemente o seu centro de gravidade, suspenso como um pêndulo. Daí a sua designação coloquial. A asa e o triciclo procuram permanente um equilíbrio. O piloto consegue “perturbar” esse equilíbrio empurrando ou deslocando a barra de controle. O resultado dessa perda de equilíbrio do conjunto, origina uma mudança do comportamento dinâmico da aeronave e da sua direcção; Puxando a barra contra o peito, diminui o ângulo de ataque e aumenta a velocidade. Empurrando a barra para a frente, aumenta o ângulo de ataque e diminui a velocidade.

Mas é na curva quer todo o segredo e tecnologia do pendular se revelam. Sem querer entrar em grandes considerações aerodinâmicas e de um modo o mais simples possível, eis o que acontece: Tal como nos aparelhos de três eixos, a curva nos pendulares é criada provocando uma torção sobre o eixo longitudinal (roll) para atingir a inclinação desejada e uma força que “ empurre” o avião para dentro da curva. Portanto, para virar para a esquerda, o piloto desloca a barra para a direita, e o trike se deslocará do seu ponto de equilíbrio para a esquerda. Devido à acção do piloto, a asa inclinar-se-á também para a esquerda. Devido à flexibilidade da asa, o peso agora desequilibrado e “ anormal” do trike colocado sobre a esquerda da asa descaída, vai originar uma transformação em toda a asa, um fenómeno designado por “Billow Shift”: A parte da asa que se encontra no interior da curva forma uma espécie de “balão” devido ao peso e desequilíbrio do trike, reduzindo o ângulo de ataque e a sustentação , e a parte da asa no exterior da curva fica completamente esticada, aumentando o ângulo de ataque e a sustentação. Isto, conjugado com o arrasto considerável na asa que está no interior da curva, origina assim uma curva equilibrada para a esquerda.

Eis como um aparelho aparentemente simples, encerra em si um sem-número de estudos e tecnologia desenvolvido ao longo dos anos, com o simples intuito de proporcionar uma máquina excitante e simples de voar.

Quem me conhece, sabe para qual dos aviões estacionados na placa corro quando me deixam à solta num qualquer aeródromo…

Bons voos, caros amigos.

Mike Silva

2 comments

  • Carlos Alves

    Boa, Mike, essa aeronave deixa-me intrigado. Um dia terei de voar contigo numa máquina dessas, mas tu a pilotar como é óbvio. Um artigo esclarecedor.

    • Mike Silva

      Será um prazer retribuir a amabilidade do meu amigo com quem costumo voar quando vou a Portugal. Um abraço.

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