“Ver e evitar” inibe o direito de passagem?!

Pronto, já todos sabemos que voar em espaço aéreo Golf implica a obrigação de “ver e evitar”. Mas, será que essa obrigação de ver e evitar outra aeronave lhe inibe a prioridade no direito de passagem?
A resposta é um firme SIM e sem excepções.

A obrigação de um piloto de ver e evitar outras aeronaves a todo o tempo (excepto em Condições Meteorológicas por Instrumentos (IMC) reais, Espaço aéreo Controlado Charlie e com um plano de voo IFR) é completamente independente de qualquer reivindicação de direito de passagem do piloto.

CAVOK_LM_Nome do arquivo-12Então, agora a questão ou questões principais são: Como pode o aviador cumprir esta regra? Que medidas deve um piloto observar para garantir que efectivamente olhe, procure e evite outras aeronaves?

Eu diria que o dever de “ver e evitar” outras aeronaves começa com a educação. O passo seguinte envolveria o planeamento pré-voo e por último a pratica activa durante o voo do “olhar para fora da janela”, fazer o varrimento sistemático visual, mecânico e cíclico. Adoptar procedimentos de compensação adequados às limitações do piloto e da aeronave, combinadas com técnicas adequadas de rastreio visual são digo eu, uma estratégia eficaz para a prevenção de colisões.

No artigo anteriorver e evitarjá vimos onde e como as acidentes ou colisões são passíveis de ocorrer e formas evitá-las. Leu o artigo?! Não?! Reveja os conceitos e conselhos uma vez mais antes de avançar-mos!

Pois bem, agora que já o releu voltamos à questão “que medidas deve um piloto deve observar para garantir que efectivamente se vê, possa evitar outras aeronaves?” Como piloto, usa mesmo todos os recursos à sua disposição no cockpit?

Num relatório sobre colisões no ar e quase-colisão no ar, os autores de um relatório para o Instituto Americano de Aeronáutica e Astronáutica constatou que, 54 por cento das colisões no ar podem ocorrer entre aeronaves viajando na mesma direcção. Isto é, uma aeronave a ultrapassar outra aeronave e lhe bate por trás. Descobriram também que mais da metade de todas as colisões no ar ocorrem em ou perto do circuito de tráfego do aeródromo, como tínhamos falado no artigo anterior. No circuito de tráfego de aeródromo, 82 por cento dos conflitos resultam de uma aeronave ultrapassar outra aeronave por trás.

Quando não está perto de um aeródromo, em rota portanto, a distribuição dos acidentes varia, com o maior número de conflitos (29 por cento) a ocorrerem entre dois aviões que se aproximam com cerca de uma diferença de 90 graus de rumo.

Assim, estes dados dizem-nos que temos de ser mais vigilantes quando nos aproximamos dos aeródromos.

Quando nos aproximamos dos aeródromos, estamos distraídos por muitas coisas como sejam os circuitos padrão, o layout do aeródromo, as frequências e, espero eu, o sempre presente checklist de aterragem. Ora, isso complica ainda mais as coisas.

Tal como já referi os estudos revelam que a sua capacidade de “ver e evitar” outra aeronave realmente diminui à medida que a sua atenção se distrai com outros assuntos. Não é só a sua atenção que é desviada mas o seu campo visual, na verdade, ela diminui à medida que sua carga de trabalho aumenta dentro do cockpit. A sua situational awarness ou consciência situacional pode ser ficar grandemente deteriorada.

Para complicar ainda mais as coisas, acrescento mais umas perguntas:
CAVOK_LM_Nome do arquivo-59Será que não se deixa ultrapassar e distrair de suas obrigações ou tarefas no cockpit (estou a falar por exemplo do seu iPad ou tablet ou até pelo ultimo grito de GPS instalado na sua aeronave)? Consegue não se abstrair do seu iPad ou outro dispositivo electrónico que não sejam os básicos (altímetro, velocidade, atitude, rumo) quando se aproxima do aeródromo? Será que necessita do iPad para verificar o layout do aeródromo?! Precisa de ver confirmar as altitudes de circuito na carta do dispositivo electrónico?! Tem a rotina de ciclicamente ver os instrumentos que precisa de verificar e ocasionalmente olhar para fora da janela? Se você respondeu sim, então está realmente a diminuir suas chances de “ver e evitar” a outra aeronave.

Bem, nós podemos realmente mitigar alguns procedimentos com um bom planeamento pré-flight, quer ver…em vez de estudar o diagrama do aeródromo em voo, organize um dossier e estude-o a partir do conforto da sala de estar ou no lounge do aeródromo antes iniciar o voo; planeie as suas entradas no circuito de tráfego de aeródromo do destino e rota antes do voo; leve as frequências já introduzidas em stand-by caso o seu rádio tenha essa capacidade mas, saiba quais são antecipadamente; altere e adapte as suas rotinas para uma maior fluidez do trabalho do cockpit de modo a reduzir a sua carga de trabalho quando se aproxima de um aeródromo; faça os checklists antes da chegada ao circuito do aeródromo…tantos quanto possível!!!!

Quando está em voo, mantenha o seu olhar lá para fora…repito, OLHE LÁ PARA FORA examinando pequenas secções de céu e faça o Plano de Voo e “use e abuse” dos órgãos ATC ou Lisboa Militar para o Serviço de Informação de Voo garantindo alerta para a presença de outras aeronaves.

Resumindo, deixe-se lá de “televisões” e distrações e OLHE LÁ PARA FORA!!!!

 José Rocha. 28 Novembro 2015. Tradução e adaptação do Original aqui.

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