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Historia de um controlador Português que ajudou a salvar 306 vidas

Passavam das cinco da manhã do dia 24 de Agosto de 2001 quando a tripulação do Air Transat 236, que voava a 39000 pés de Toronto para Lisboa e no meio do Atlântico, a quase duzentas milhas náuticas de qualquer aeroporto, se deu conta que o nível do combustível estava drasticamente baixo.

Eram cerca das seis da manhã quando declararam emergência para o Centro de Controlo Aéreo de Santa Maria divergindo para a Base Aérea das Lajes.

Às seis horas e treze minutos o primeiro dos dois motores do Airbus 330 calou-se por completo e a aeronave começou a descer para os 32000 pés. Apesar do Airbus conseguir voar em segurança com apenas um motor, bastaram quinze minutos para que o segundo motor se calasse também por falta de combustível.

O Air Transat planava agora sobre o oceano, para tentar alcançar o aeroporto das Lajes, a cerca de cem milhas de distância. Nessa altura os pilotos iniciaram os procedimentos de amaragem instruindo os seus 293 passageiros, para vestirem os coletes salva vidas.

Quando atendeu o telefone nessa madrugada e tomou conta da emergência através do Centro de Controlo, José Ramos, Controlador de tráfego Aéreo da Força Aérea Portuguesa que se encontrava de serviço no Radar da Base Aérea das Lajes acreditou, depois do impacto inicial, que o Airbus estando a menos de cem Milhas da sua pista, tinha fortes possibilidades de fazer uma aterragem em segurança.

Existem procedimentos e protocolos que têm de ser realizados pelo Controlador, aquando de uma emergência com uma aeronave, como sejam o de avisar os restantes órgãos de controlo, afastar as aeronaves que possam constituir obstrução à aeronave em emergência, anunciar a emergência para os serviços de socorro, informar o Centro de Busca e Salvamento e evitar comunicar ou comunicar o mínimo possível, para deixar a frequência livre no caso da aeronave em emergência querer comunicar.

CAVOK_LM_Nome-do-arquivo-23aDe tudo isso tratou José Ramos e o resto da equipa, que se encontrava no radar nessa madrugada.

Quando começou a falar com os pilotos, a serenidade e o profissionalismo foram determinantes, para que fizesse acreditar aos pilotos que a aterragem iria ser um sucesso.

Tranquilamente e com base no que observava no ecrã radar o Controlador de 44 anos de idade tranquilizou o piloto dizendo-lhe que dada a distancia e altitude o iria trazer para o aeroporto.

Valeram-lhe a voz calma dos quase 20 anos como controlador que incutia a confiança aos pilotos à medida que lhe fornecia vectores radares precisos e com as palavras certas de tempos a tempos, fez acreditar e induzi-los a fazer o que eles tinham sido ensinados a fazer melhor… voar a aeronave num compromisso de altitude, distancia e velocidade.

As boas condições meteorológicas e de visibilidade, que prevaleciam na zona, contribuíram de forma significativa para que a tripulação tivesse os melhores julgamentos de altitude e atitude da aeronave no segmento final da aproximação.

À medida que o blip no radar se aproximava da Pista, o nervosismo crescia, não só no José Ramos como nos pilotos. Não haveria hipótese para uma segunda aproximação. Os vectores radar, depois de ponderados, eram dados com uma precisão milimetrica.

Os procedimentos de aterragem foram iniciados com a aeronave a receber energia de emergência dumas pequenas turbinas, RAT (Ram Air Turbine) que, com a deslocação do ar alimentam alguns sistemas vitais da aeronave.

Todos os meios de socorro se encontravam devidamente posicionados e prontos para actuar caso a aeronave chegasse à pista. Estavam também já de prevenção, os meios de salvamento marítimo acautelando o pior cenário, a amaragem.

Ás seis horas e quarenta e cinco minutos, o Air Transat aterrou duro na pista 33 da Base Aérea das Lajes, mas com todos os passageiros e tripulação a salvo. Apenas 18 pessoas sofreram de escoriações menores que foram tratadas no local.

José Ramos, Operador de Circulação Aérea e Radarista de Tráfego da Força Aérea Portuguesa, vulgo Controlador Aéreo. Condecorado pelos Americanos com o Aeronautical Safety Award. Louvado pela Força Aérea Portuguesa. Premiado com o Rotary International Award continua a servir a Força Aérea Portuguesa com a mesma intensidade e empenho.

José Rocha. 11 de Novembro de 2015. Co-autor do artigo, José Ramos. Imagens meramente ilustrativas gentilmente cedidas pela NAV Portugal.

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Filmes e documentários baseados nos acontecimentos vividos pelo José Ramos.



9 comments

  • Carlos Ramos

    Para mim como irmão é um imenso orgulho.

  • Joao Oliveira

    Não o conheço, mas o seu maior orgulho terá sido o de salvar mais de 300 vidas. Vale mais do que 300 medalhas…Já vi o filme da TV que explica o que aconteceu dentro do avião. Seriam mais de 10 litros por segundo de fuga devido a uma deficiente válvulas após a manutenção ao avião.

    Abraço

  • Mike Silva

    Era este tipo de história que de vez em quando gostaríamos de ver relatada na comunicação social. A actividade de controlo aéreo passa praticamente despercebida do grande público, quando é muitas vezes neste ambiente que se vive grande tensão de prender à cadeira e se evitam, com contornos de heroísmo, grandes desgraças. Um Mundo de homens e mulheres que trabalham no anonimato , mas que vão para casa todos os dias descansados por saberem que cumpriram a sua missão e deram o seu melhor e sobretudo salvaram vidas. Este episódio e os seus intervenientes merecem ser relembrados constantemente. Bem hajam.

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