Lições e “Trambolhões” Take One

David Pendular

Artigo de Opinião

 

Nota: Só agora fui autorizado pelo Cavok.pt a publicar estes artigos..

Após ter concluído o curso de Asa Delta, efectuado no Aeroclube de Portugal no princípio dos anos 80 do séc. passado, comecei a tratar do processo de adquirir uma Asa Delta. Nessa época haviam muito poucos aparelhos deste tipo em Portugal e a sua encomenda era efectuada ao estrangeiro e era um processo lento e caro.

Falei com o meu instrutor, o José Manuel e ele procurou encontrar uma Asa Delta em Portugal. Depois de algum tempo apresentou-me uma solução de adquirir um aparelho bom para iniciados a um colega que estava a querer fazer um upgrade para uma de competição.

Lá comprei a Asa, com o arnês, capacete e um paraquedas manual de ventre e um suporte para poder transportar no carro.

Aprendi a montar e desmontar o equipamento, as técnicas de nos enfiarmos no arnês, estando pronto e ansiando para o meu primeiro võo, na minha nova Asa Delta.

Então num fim de semana, em que estava bom tempo, combinei com o José Manuel e com o meu amigo João Pedro Neto Rocha, irmos a um local para eu poder fazer o meu primeiro võo.

Lá arranjámos uma encosta bastante pronunciada, com uma zona que permitia fazer a descolagem, levámos a bucha para almoçar e lá fomos.

Chegámos ao local e era lindo, com um desnível cerca de 200 metros e campos de cultivo a perder de vista.

Mas, há sempre um but, havia um problema, as condições eram excelentes, exceptuando não haver vento nenhum.. (nas asas deltas é preciso descolar contra o vento)

Bem, lá esperámos, esperámos, até que lá pelas 19 horas, começou a soprar uma nesga de aragem. Aí eu já estava a ficar farto de esperar e disse vou mas é já tentar descolar e experimentar a máquina !

O José Manuel homem experiente nestas lides: ó David, o melhor talvez fosse arrumarmos as coisas, tentar amanhã que é Domingo e talvez a meteorologia esteja melhor, não vale a pena arriscar.

Eu que já estava no limiar da paciência e o dia estava a acabar, não ia desistir do meu sonho de experimentar já o meu novo aparelho voador.

Assim contra a opinião dos presentes, disse-lhes, vou mas é já para o ar, antes que seja noite. Como há pouco vento, vocês ajudam-me e dão um empurrão final para eu descolar…

Dito e feito, lá me equipei o melhor que sabia, com os nervos à flor da pele, luvas, botas, arnês ligado à asa, e preparei-me para descolar com a ajuda dos meus amigos.

Depois de breve concentração, lá comecei a correr desenfreadamente, com os meus amigos a ajudar, até à borda do precipício.

Quando entrei no vazio, evidente, não tinha velocidade suficiente, pelo que tive um afundamento brutal e quando olho, tinha um sobreiro à minha frente que com um milagroso empurrão no triângulo e encolhendo ao máximo as pernas, lá consegui ultrapassar.

Portanto estava no ar, tratei de me encaixar bem no arnês, colocar a máquina no seu melhor índice de planeio, tudo bem e a funcionar vamos começar a pensar onde será a zona de aterrar..

Esta asa, comparada com as asas de instrução, era uma máquina muito mais potente, com maiores velocidades, maior índice de planeio e muito mais sensível aos comandos.

Lá fui voando, até que já estava sobre a planície e observei o que pareciam campos de cultivo, todos iguais divididos por pequenas linhas de água e vedados por cercas.

Comecei a tentar perceber onde é que o índice de planeio me ia levar e decidi aterrar num determinados campo, que me parecia alcançável e um pouco maior que os demais.

Preparei-me para aterrar, coloquei-me em pé, e comecei a tentar aterrar no dito campo. Bem aqui a coisa começou a falhar, a asa voava voava que nunca mais acabava.. era o chamado flare infinito..

O pôr do sol já vinha a caminho e de repente na minha aterragem, descortino no meu horizonte próximo o fim do campo, delimitado evidentemente por uma cerca de arame farpado para aí com metro e meio de altura.

Bem aqui, como se diz, comecei a ver a vida a andar para trás e logo em seguida o campo acabou, a asa ainda voava e claro, consegui passar pela cerca tudo, menos os meus pés que ficaram presos no arame farpado. (porque raio tinham cercas de arame farpado em campos de cultivo?)

David Ferreira Pendular

Como é fácil de perceber nesta posição a 40 ou 50 km por hora e preso pelos pés, tive um grandessíssimo trambolhão em que eu e a asa rodámos 90% directos à dita linha de água.

Não parti nada, mas o estado resultante, foi muito desagradável, foi devido a que não era um campo de cultivo era um campo de pasto de gado e os tais regos de água, não era água era estrume !!

Resultado verão, noite a chegar, mergulhado num monte de estrume, o cheiro era insuportável e a ser simultaneamente picado por n + 1 insectos de todos os tipos e feitios.

Para somar à desgraça fez-se noite e os meus amigos demoraram mais de uma hora e meia a chegar ao local do trambolhão..

Esta foi a minha primeira experiência, na actualmente chamada aviação ultraligeira.

Lições a tirar:

Nunca voar sem estarem as condições mínimas meteorológicas para o efeito

Nunca voar sem verificar as condições de descolagem no fim da pista

Nunca voar em estado de grande ansiedade ou nervosismo

David Ferreira

 

24 de Outubro de 2015

 (Nota do CAVOK.pt : Por falta de fotografias da época mencionada por parte do autor em asa delta, optámos por colocar fotos do mesmo autor mas em aeronave pendular motorizado)

 

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