O voo curto e não planeado !

Já o fiz muitas vezes, e certamente já todos o fizemos, mas o que é facto é que sempre que ouço alguém a virar-se para outro e a dizer “Vamos dar uma voltinha?” fico sempre apreensivo.

Lembro-me dos bons tempos em que dizer “Vamos dar uma voltinha” implicava sairmos por volta das 9:30 com os depósitos cheios e com planeamentos de ir daqui para ali, almoçarmos ali e voltarmos antes do por do sol. Mas a “austeridade” ou a “recuperação económica”, depende do ponto de vista, veio trazer um novo voo para esta atividade.

É o voo daquele piloto que não voa à dois ou três meses, e que lá consegue “tempo” para voar uma hora, ou se calhar uma meia horita, enquanto a “maria” vai ao supermercado”. Como não tem tempo para ir a outro aeródromo ou pista, decide “dar uma voltita” sem nada definido, sem planeamento e na base do “logo se vê o que vou fazer”

Não tenho nada contra as “voltitas”. São aliás um dos benefícios da nossa aviação de lazer. No entanto elas escondem um perigo eminente ao qual é preciso estar atento e consciente. Sem planeamento ou missão predefinida, é comum começarmos por ver as vistas a 500’, seguido por uma passagem baixa e já agora e porque não subir a 2.000´para ver as nuvens, para logo a seguir fazermos um “treino” de voo lento” e porque não um treino de perda para logo depois irmos para a pista num SAF, mas como borregámos, até podemos agora voltar pela direita por aquele sitio que nunca lá fomos, para aterrar logo de seguida.

No nosso tipo de aviação, ter um voo com uma missão especifica nem sempre é fácil. Mas cabe a todos nós evitarmos a todo o custo um voo não planeado. Todos nós ouvimos os nossos instrutores dizer que “devemos estar sempre à frente do nosso avião”. O maior perigo de um voo não planeado é o de “o avião passar à nossa frente” e nem darmos por isso.

Existem algumas formas de evitar esta situação, mesmo para voos de pequena duração:

Tenha uma rotina de pré voo instalada.

Tente ser consistente nos processos que faz antes de ligar o avião. Tenha uma pré-checklist se tal o ajudar. O que leva para o avião, o que precisa de ter preparado antes de ir para o avião, documentos, Head-sets, GPS, etc.

Tenha voos com rotas pré-estabelecidas

Nada melhor para os voos após longos intervalos de tempo de inatividade do que ter um voo pré definido com pontos de passagem que já conhece e um voo em que sabe perfeitamente por onde passa e onde acaba com o tempo total já conhecido. Isso facilitará a gestão da gasolina, os custos do voo e o tempo disponível que tem para o voo.

Saiba o que vai fazer

Se não tiver nada estabelecido, defina em terra o seu voo. Saiba no chão aquilo que vai fazer no ar e não o altere. Defina num pedaço de papel por onde vai passar, o tempo disponível e verifique a gasolina para o voo.

Não misture treino com lazer

Executar manobras de treino exige uma concentração especial. Se misturarmos um voo de laser com manobras de treino, o mais provável é nem gozarmos a tranquilidade de um voo de lazer ou de nem aprendermos nada com as manobras que se fez. Ou é treino ou é lazer e tenha o estado de espirito adequado a cada um. E nunca efectue manobras de treino com passageiros a bordo!

Crie um rotina para voos de treino

Mantenha um registo dos voos de treino efectuados e das manobras executadas em cada um. Assim saberá há quanto tempo não treina esta ou aquela manobra. Na maioria dos aeródromos ou pistas haverá escolas ou instrutores, ou mesmo pilotos com mais experiência que não se importaram de voar consigo para que tenha 4 olhos no cockpit.

Crie fichas de treino e leve-as consigo

Pode criar as suas próprias, mas existem muitas disponíveis na internet ou em livros da matéria. Reveja-as com a sua escola, instrutor ou outros pilotos e adapta-as se necessário à sua classe e tipo de aeronave. Basicamente são cartões com as sequências de manobras de treino que devem ser feitas, sua preparação, briefing e debriefing. Faça sempre a pós análise das manobras executadas.

Não é a duração de um voo que define o risco do mesmo. Um voo curto merece-nos o mesmo respeito que um de longa duração.

Bons voos

Luis Malheiro

4 comments

  • António Guerra

    Muito bom artigo a fazer relembrar as boas práticas ! Ainda que num voo curto de lazer devemos criar o hábito de depositar o respetivo FP. Afinal é um simples telefonema para o ARO que demora 5 minutos ou menos. Safety first.

    • A . Santos

      Não entupam o ATC, os controladores têm mais que fazer, quando terminam o ” voo curto de lazer” ainda eles não têm conhecimento do FP. Voos fora de espaço aéreo controlado quando possível.

  • Nuno Rebelo

    Boas dicas!!! Todos sabemos sempre tudo, mas às vezes… esquecemo-nos!!! E é bom haver quem nos lembre daquilo que já não nos lembramos!!!

  • Alvaro matos

    Parabéns pelo excelente texto. Na minha opinião é talvez o maior problema desta nossa actividade – falta de preparação, ou seja, atitude aeronáutica e segurança de voo…

    Urge mudar de forma de pensar e criar mentalidade aeronáutica com segurança de voo.

    Fly safe

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