Gosto muito de Aeronáutica, Porquê? Take Three !

Continuação de Take Two..

Na altura eu pensava que o pior já tinha visto, mas estava enganado.

Um dos problemas que surgiu na ponte aérea, tornou-se imperioso retirar fugitivos também de Nova Lisboa (hoje em dia denominada Huambo), uma cidade bastante longe, a norte de Luanda e situada num planalto bastante alto. Esta cidade era na altura uma cidade importante que tinha sido “ocupada” pela UNITA e onde havia uma das grandes faculdades de veterinária à época.

Esta cidade tinha um aeroporto, nessa altura despojado de qualquer apoio técnico para aeronaves de grande porte e situava-se em altitude relevante, o que condicionava a operação das grandes aeronaves, das duas uma ou se recolhiam poucos refugiados e carga ou avião tinha de ir só com o combustível necessário e fazer as 2 pernas Luanda-Nova lisboa-Luanda.

Boeing 747 Antenor Ferraciolli_1976

Boeing 747 Antenor Ferraciolli 1976

Do que me recordo os aviões voltavam para Luanda, sempre cheios e carregados, pelo que deduzo que trabalham só com com o combustível necessário para fazer o circuito das 2 pernas referidas.

Fui convocado para começar a fazer estes võos Luanda-Nova lisboa-Luanda para além dos outros já referidos no artigo anterior.

Assim lá fui num avião 707 americano, saímos de Luanda com o avião vazio para Nova Lisboa ao fim da tarde, foi uma viagem pacífica e aterrámos já noite no aeroporto de Nova Lisboa.

À nossa chegada apercebemo-nos de que aqui a situação era muito mais dramática que em Luanda, as pessoas estavam ao relento na placa sem comida e com pouca água há dias, só lá estava outro avião estacionado a preparar-se para sair.

A cidade tinha sido tomada pela UNITA e eram os militantes deste partido que controlavam o aeroporto. Os tripulantes do avião ficaram a dormir no avião. Vários voluntários da ponte aérea saíram do Aeroporto num Volskwagen que estava abandonado, tendo como destino um pequeno hotel no centro da cidade para dormir.

Estávamos calmamente a observar a cidade à noite pela estrada principal de acesso, quando subitamente ouvimos distintamente o som do disparo de uma Kalachnikoff e o condutor pára o carro rapidamente. No meio do nada somos rodeados por um conjunto de crianças fardadas da UNITA armados até aos dentes e completamente alcoolizados ou drogados.

Sempre com as armas apontadas, pedem-nos a identificação e perguntam o que transportamos, rapidamente todos os nossos pertences de valor trocam de mãos e por sorte ou arte saímos incólumes. Eu estava no banco de trás de um “Carocha”, portanto imaginem a situação completamente encurralado, sem qualquer hipótese de tentar uma fuga.. pensei na altura agora é que é !!

Depois desta primeira recepção à cidade, começamos a tomar muito cuidado e sempre que víamos viaturas militares ou tropas mudávamos de trajecto, até chegarmos ao dito hotel. Não havia recepção, não havia comida nem água, mas quartos estavam à disposição. Escolhemos os nossos quartos e fomos dormir.

Durante a noite, percebemos que é muito difícil de dormir com constantes disparos de armas à nossa volta e rapidamente do conforto das camas, passámos para o desconforto debaixo das camas e sem dormir.

Ao raiar do dia seguinte lá seguimos para o Aeroporto de Nova Lisboa. A partir de certa altura deixámos de ver a presença das forças armadas portuguesas, que para nós, no contexto de uma guerra civil, era a nossa única esperança de protecção.

Á chegada a situação era desesperada, milhares de pessoas à espera de poder fugir, um cheiro nauseabundo, não havendo qualquer apoio no aeroporto. Assim os voluntários com alguns refugiados organizavam-se para orientar as pessoas para as aeronaves e tratavam com alguns camiões remanescentes do exército português colocar as bagagens nas aeronaves.

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Terminal Aeroporto Luanda 1975

Aqui desde a primeira á última vez que lá fui, a entrada nas aeronaves era feita a correr pela placa e a ver quem conseguia entrar primeiro. Era um espetáculo terrífico, um barulho incrível as pessoas choravam, gritavam e o reactor sempre a trabalhar, estando na porta da aeronave a olhar para este espetáculo, era assustador parecia que íamos ser espezinhados e esmagados.

Não vi, mas ouvi relatos de pessoas que mesmo após a aeronave estar pronta a partir, tentarem subir para os trens de aterragem e mesmo esconderem-se nos porões de carga com as bagagens.

Numa das viagens, lembro-me bem de que num dos 2 Boeing 747 da TAP, quando a confusão abrandou verificámos que a aeronave tinha mais de 500 pessoas a bordo.. Era uma situação dramática, ter de mandar pessoas embora e era um perigo descolar desta forma num local em altitude. Os pilotos aproveitavam todos os centímetros de pista possíveis e a descolagem era incrível, era sempre á tangente e com todas as potencias e técnicas possíveis imaginárias.

Que me recorde, só houve um acidente com uma aeronave, que não tendo conseguido descolar, acabou no fim da pista com os trens destruídos, tendo ficado abandonada.

Mal sabiam estas pessoas que muitas delas teriam ainda um 2º calvário no Aeroporto de Luanda, até finalmente se com sorte conseguissem um lugar para a liberdade, não sabendo do 3º Calvário final no Aeroporto de Lisboa..

Aqui comecei a perceber, que os tipos de pessoas eram diferentes, mais pobres, muitos agricultores, pequenos comerciantes, com famílias brancas, pretas de todas cores, enfim num desespero maior. Inúmeros viajavam despojados de tudo, só levavam a roupa que tinham vestida.

Depois existiam também a questão das crianças abandonadas a quem tentávamos sempre dar prioridade no consolo possível..

Houve sempre situações de tentativa, por parte dos refugiados, de tentarem comprar o seu lugar, oferecendo casas, carros, diamantes, ouro, era uma confusão e nos voos que realizei nunca foram aceites quaisquer tipos de “luvas”.

Entrava toda a gente, até o avião estar totalmente lotado inclusivamente usando os lugares livres do cockpit e lugares da tripulação, a regra era encher, mas todos tinham de ter um lugar sentado.

Caixas Retornados Padrão Descobrimentos Lisboa 1975

Caixas Retornados Padrão Descobrimentos Lisboa 1975

O Cheiro era impressionante, suor, terra, humidade, urina, enfim um horror que continuava muitas vezes na viagem aérea, algumas das aeronaves, parecia que era de propósito, que os ares condicionados avariavam.. só as aeronaves da Aeroflot com as suas injecções de oxigénio periódicas tinham uma vantagem competitiva.

Muitas vezes surgia o problema de famílias serem separadas, onde parte tinha arranjado lugar, mas a outra ficava fora da aeronave, eram situações críticas porque para as famílias ficarem juntas, era necessário outros refugiados serem retirados da aeronave, isto não era de facto para pessoas sensíveis.

Estado Placa Aerporto Luanda_2Dragon Rapide_Ponte Aerea_1975

Estado Placa Aeroporto Luanda Dragon Rapide Ponte Aerea 1975

No meio deste caos, houve muita gente que se aproveitou do alheio, para tentar contrabandear para Portugal bens de todo o tipo e mesmo estupefacientes, mas isso é característica da raça humana, os saqueadores.

Voltando a Luanda, nessa época assistíamos em primeira mão à saída dos portugueses e à vinda massiva de grandes aeronaves de transporte militar Russas e Cubanas, que desembarcavam equipamento militar e tropas que seriam utilizadas pelo MPLA na guerra civil contra a FNLA e a UNITA.

Contra o que se pensa muitos dos refugiados eram já pessoas de 2ª ou 3ª geração para quem Angola era a sua terra, desconhecendo completamente Portugal (Continental, na altura denominada a metrópole).

O nome que na altura se começou a utilizar eram os Retornados, nome que na altura tinha uma conotação depreciativa, que ficou imortalizado nesta fase de fim do império ultramarino, pelos milhares de caixas de madeira junto ao padrão dos descobrimentos em Lisboa.

Luanda Placa Inauguracao Caminho Ferro 1836 D_Luis e propanaga MPLA_1975

Luanda Placa Inauguração do Caminho Ferro 1836 D. Luis e propaganda MPLA 1975

Entretanto a cidade ficava despovoada dos seus anteriores habitantes e começavam a vir dos musseques (a outra cidade a dos negros) para a cidade dos brancos, os presos saem das cadeias, as escolas fechadas, a banca fechada, os pequenos comerciantes fogem, os taxistas desaparecem, o dinheiro angolano deixa de ter qualquer valor, algo nunca visto.

As forças armadas portuguesas deixam de ser reforçadas e começam a dialogar com os movimentos de libertação e a retirar para Luanda, houve muitas centenas de mortos nesta múltipla guerra civil e fim do Império, um colapso.

A última recordação da Ponte Aérea, que me impressionou, foi a do dia 10 de Novembro de 1975, no último võo Luanda – Lisboa, em que participa, era fim de tarde, tudo era um abandono total, o avião está pronto para descolar, começa a rolar na placa e dirige-se para a pista em uso na altura, de repente no cockpit, pela escotilha de bombordo, vejo um homem a correr freneticamente em direcção ao nosso avião, falamos com o Comandante e verificamos que é mesmo a sua intenção tentar entrar na aeronave em movimento, percebemos logo que é uma situação desesperada, que não sabemos a origem e percebemos que vem a certa distancia um veículo militar no seu encalço (pressupomos do MPLA em perseguição).

Nesta situação numa sequência de muito poucos minutos, o comandante reduz a velocidade da aeronave de imediato, dá ordem à tripulação para abrir a porta de bombordo, sem parar é efectuado o procedimento e lança uma escada de emergência para a pista, a tripulação ajuda o homem a subir e a entrar no avião, que de imediato retoma a velocidade apruma-se à pista e descola em direcção ao mar e depois para norte para Lisboa.

Poderia continuar a descrever esta História da Ponte Aérea, mas ficará para outra altura numa perspectiva mais contextualizada e histórica, voltemos ao tema.

Depois desta experiência, o regresso a uma vida normal, ir à escola e viver em casa dos meus Pais foi muito difícil. Tudo começou a correr mal, lá consegui concluir o 6º e 7º ano e retornei à minha ideia, da dita paixão.

A continuar

David Ferreira

13/09/2015

One comment

  • José Brás

    Fiz vários a Nova Lisboa, com a aproximação à vista de fogueiras junto à pista e o drama todo que é descrito na “peça” aqui. Avião parqueado, portas abertas e militares da Unita de imediato subindo as escadas em busca de comunistas. Sabíamos que para eles, comunista seriam todos os portugueses. As garrafinhas de vinho que levávamos funcionavam bem para baixar a tensão gerada com a presença de homens e armas. Depois, acolher toda aquela gente com o terror nas faces e os tenebrosos relatos que traziam, a viúva que vira o marido assassinado uma hora antes mesmo junto ao aeroporto, a fome de vários dias, a ânsia espantosa de sair dali, as famílias separadas sabendo que dos que ficavam em terra alguns nunca mais chegariam, a folha de carga que já não tinha préstimo para meter mais gente no avião, a viagem feita até Luanda com homens e mulheres analfabetos, quase miseráveis que haviam chegado a Angola naquela emigração que de Portugal se fazia para Angola, repetindo o mesmo tipo de sociedade que vigorava aqui, sem meios, sem técnicos, rurais de carro de bois, com baixos salários, quase escravos que haviam chegado vinte anos antes e nunca mais haviam viajado da exploração agrícola onde trabalhavam.

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